terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Sobre aquilo que eu deveria ter dito, mas eu simplesmente sumi.



É a mesma rua sem saída de cinco anos atrás.
A mesma vontade de mudar a rota, pegar um atalho, ir contra a corrente, achar um caminho.
Porque a vida me aperta o peito.
Faz eu sentir como se todo esse esforço fosse em vão.
E é. Ou, pelo menos, parece ser quase sempre.
Sempre que eu acredito estar chegando um pouco mais perto daquilo que eu sou, me vejo afogada em outras tantas dúvidas, e aí não dá para ter controle.
Eu sumo.
Eu não quero mais ninguém por perto.
Eu não quero dedos apontados, nem opiniões vazias.
Eu não quero justificar o injustificável.
Não quero explicar, assim como não exijo explicações.
Eu quero ir embora de mim.
E isso me bastaria, não fosse a impossibilidade do pedido.
O que fazer quando a mente voa mais alto do que os nossos pés podem alcançar?
Eu já não tenho lá tanta fé e esperança nessas coisas de mudança, e tempo, e sonhos, e tanto.
Prefiro repousar meu sono nas poucas certezas que me cercam.
Ser bem menos e esperar menos ainda de tudo o que poderia ser.
Mas aí vem a vida e mostra que eu ainda estou bem longe de onde eu deveria estar.
E dá uma preguiça de ser ainda tanto para conseguir ser inteira e por completo.
Quem dera nossas ausências nos bastassem.
A dor, a morte, a falta.
Nunca basta.
Estamos sempre cheios.
E, quase sempre, não temos nada.

domingo, 2 de setembro de 2018

Gatilho.


Talvez amanhã, terça, talvez nunca mais, mas hoje, hoje eu não queria.
Só que você sabe, não dá pra escolher não viver um dia.
Por mais que você resolva não existir.
Ainda que você viva em uma bolha.
Sempre vai ter alguém para quebrar o silêncio, alguém para tirar a sensação de paz, 
alguém para cutucar a ferida, alguém para questionar suas certezas, alguém para contrariar sua opinião.
E aí, Zé, não tem mais jeito.
Aquela sensação de estar morrendo, de faltar o ar, de estar se afogando em si mesmo vem a tona e leva tudo embora.
Tira a paz, tira o sono, tira o sossego.
Me mata um pouco mais a cada nova invasão.
Não tem remédio que cure a dor de ser a gente, Zé.
Não tem terapia certa pra mudar o que os astros arquitetaram para gente ser.
É isso e pronto.
Acabou. Nada mais a declarar.
Só sentir. Só penar.
Eu sinto muito, Zé.
E sinto tantas vezes ao longo dos dias. E eu só queria não sentir.
Não ser. Mas aí me vem uma cobrança maior.
E se eu decidisse de uma vez que é melhor desistir, Zé?
Será que, de fato, faz diferença?
Será que alguém se importa?
Eu quero ir embora, Zé.
Não sei bem ao certo para onde, mas eu quero ir embora de mim.
Quero ir pra poder me encontrar.
Eu quero ter paz, Zé.
Eu quero ser eu sem ser demais.
O mundo é imenso e eu sou só um projeto daquilo que pretendo.
Pretender não é ser, Zé.
É adiar a dor de querer o que não se pode ter.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Intermitente.


      E eu? Me fiz essa pergunta a semana toda, Zé. Dados os últimos acontecimentos da vida, tenho me obrigado a persistir sem vacilar, erguida com a pouca dignidade que me resta. Dá raiva, Zé, dá um aperto no peito, um desespero também. Uma vontade de gritar, pedir colo, me render, desistir. A troco de quê? Não sei. E já se vão longos cinco anos sem saber.
  Esses dias eu quis morrer, só pra variar. Não via mais sentindo seguir esse caminho que a mim foi destinado sem muita conversa, muito acerto. Aquele vazio que tinha se aquietado, resolveu pôr as garrinhas de fora mais uma vez. Cá estou eu, inundada no caos do vazio de mim. Talvez Sócrates explique, como todas as outras coisas da vida que ele fez o favor de criar uma teoria. E essa foi outra descoberta, Zé, na teoria, sou péssima na prática.
    Percebi que ainda guardo muitas coisas, Zé, e, quando menos percebo, elas me invadem. Tem um pouco de raiva e remorso descansando na quietude de ser o que sou. Vez ou outra, esses sentimentos me tomam. Ma travam. Me paralisam. E não há muito o que fazer. É deixar os dias acontecerem e a vida seguir seus caminhos tortos.
  Eu só queria a certeza de um limite, Zé. O ponto de descanso, um pouso para meu voo intermitente. Talvez essa não seja a minha vida, o meu grande espetáculo. Talvez eu tenha parado aqui por acaso, incidente, lei da gravidade. Não sei, Zé, mas cansa. E tem cansado mais a cada dia. E tem doído mais. Tem me consumido. E eu simplesmente não sei o que fazer com tudo isso.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Souvenir 2.


     Bateu aquela agonia outra vez. De repente, voltei a sentir medo. Não sei, a vida estava caminhando tão bem, tão certa. Estava recobrando uma confiança que eu nem sabia que existia em mim. Talvez seja a falta de exercício. Talvez tenha sido o último acaso. Ou deslize, não sei. Aprendi a me cobrar menos, mas as pessoas, pelo jeito, nunca vão aprender.
      Hoje incomodou, me tirou do sério. Ou melhor, roubou meu equilíbrio. Minha confiança. Desmoronou a boa imagem que construí nos últimos dois meses. Vai saber.
      Por mais que eu saiba, muitas vezes, não é intencional. Por isso a empatia se faz essencial em qualquer circunstância da vida. Não consigo me encaixar nesse modelo que as pessoas esperam. Quando me dou conta, já foi, fui mais uma vez o que me propus a ser, nada além. Me aborrece isso de aborrecer os outros, como vou adivinhar o que eles esperavam?!
       Verdade seja dita, às vezes nem eu entendo o que faço. Quando me dou conta, já foi, tarde demais. Não posso morrer toda vez que o trem descarrila.
         Queria ir embora. Gosto da ideia de terminar. Gosto, mais ainda, de começar. Traçar metas, imaginar, acreditar e me comprometer a ser. Queria um pouco mais de espaço. Um pouco mais de mim para poder ser eu completamente. Sem limitações. Sem interrupções. Me mata não ser o que sou pelo simples fato de não caber no que os outros esperam que eu seja.

domingo, 20 de agosto de 2017

Infinito.


  Você foi embora e, embora sua presença já fosse uma grande ausência em minha vida, tem dias que eu me vejo mais vazia ainda. É engraçado porque, mesmo depois de tanto tempo, perturba saber que essa falta nunca será preenchida. Veja bem, não houve e nem haverá substituto.
E com isso eu não afirmo que te quero de volta desse ou de qualquer outro jeito torto. Você foi embora e eu aprendi a partir também. Fui embora de tudo aquilo que me prendeu a você, mesmo depois de tantos dias tristes, mesmo depois de todo lamento. Mesmo depois de tanto acreditar que só teria jeito se fosse do meu jeito. A verdade é que não foi e nunca vai ser.
Não te quero de volta, de nenhuma forma. Sem disfarces, sem falsas verdades, não fujo de mais nada. A sua presença é gatilho certo para a minha insensatez. Por isso a distância medida e contada nesses dias que se desdobraram desde aquela fatídica tarde de setembro que me fez enxergar tudo, até o que eu não queria.
Essa tristeza no meu peito foi a única companhia fiel que tive na vida. A ela me afeiçoei. Aprendi a conviver. Não me incomoda dizer que sou triste. Não, tristeza até que é bom, nos ensina a esperar menos e, quem sabe assim, ser surpreendido pela vida.
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de dar um rumo aos meus passos. Ao menos agora eu sei bem o que não quero. Reduzi consideravelmente a margem de erro, depois de tanto errar. Você foi o meu maior erro, não nego.
Mas não quero voltar aos dias em que era refém do que eu idealizei para mim. Não. Agora eu já dei a cara a tapa, não tenho mais nada a perder. Você foi a perda mais certa nessa minha mania de incertezas.

Se eu pudesse te pedir ao menos uma coisa na vida, seria compreensão. Agora, mais do que nunca, entenda o meu lado. Ou não entenda nada. Assuma sua culpa apenas. Deixe que a minha eu trato de amenizar nas linhas que ainda me povoam.