domingo, 2 de setembro de 2018

Gatilho.


Talvez amanhã, terça, talvez nunca mais, mas hoje, hoje eu não queria.
Só que você sabe, não dá pra escolher não viver um dia.
Por mais que você resolva não existir.
Ainda que você viva em uma bolha.
Sempre vai ter alguém para quebrar o silêncio, alguém para tirar a sensação de paz, 
alguém para cutucar a ferida, alguém para questionar suas certezas, alguém para contrariar sua opinião.
E aí, Zé, não tem mais jeito.
Aquela sensação de estar morrendo, de faltar o ar, de estar se afogando em si mesmo vem a tona e leva tudo embora.
Tira a paz, tira o sono, tira o sossego.
Me mata um pouco mais a cada nova invasão.
Não tem remédio que cure a dor de ser a gente, Zé.
Não tem terapia certa pra mudar o que os astros arquitetaram para gente ser.
É isso e pronto.
Acabou. Nada mais a declarar.
Só sentir. Só penar.
Eu sinto muito, Zé.
E sinto tantas vezes ao longo dos dias. E eu só queria não sentir.
Não ser. Mas aí me vem uma cobrança maior.
E se eu decidisse de uma vez que é melhor desistir, Zé?
Será que, de fato, faz diferença?
Será que alguém se importa?
Eu quero ir embora, Zé.
Não sei bem ao certo para onde, mas eu quero ir embora de mim.
Quero ir pra poder me encontrar.
Eu quero ter paz, Zé.
Eu quero ser eu sem ser demais.
O mundo é imenso e eu sou só um projeto daquilo que pretendo.
Pretender não é ser, Zé.
É adiar a dor de querer o que não se pode ter.

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