domingo, 25 de junho de 2017

Sobre domingos e fotografias 3x4.

  

(Leia ao som de Fotografia 3x4, de Belchior)

Esses dias me dei conta de que o tempo é o nosso maior inimigo. Seja para o bem, seja para o mal, sempre atua contra a nossa vontade. Parece uma força cósmica, coisa de outro mundo, lei de Murphy, ou aquele velho jogo de ser do contra mesmo.
Hoje eu me vi só, como há muito tempo não me via. Não aquela solidão de não ter alguém, é aquela falta de si, de estar em si plenamente, completamente. Nessas horas só me restam duas coisas: dormir ou escrever. Por isso estou aqui, também por autocobrança, não posso abrir mão do que já fui só por estar bem melhor com o que me tornei.
Sobre ser, estar, tenho aprendido muito. Ainda não sei o suficiente, mas nada melhor do que ver o carro andando. Ouço Belchior como a última certeza que o domingo pode me oferecer. Também para acalentar a alma inquieta de quem não se contenta, descontentamento meu, nunca me abandona.
Queria quantificar em palavras os últimos anos. Mas não consigo dizer ainda se isso é possível. Será mesmo que é preciso? Me fiz essa pergunta depois de mais um acesso súbito de falta de juízo. O desespero me acompanha desde ontem, porque essa inquietude sempre que o passado resolve fazer uma visita?
Algumas coisas, por mais resolvidas que pareçam, nunca se resolvem de fato dentro da gente. Daí fica esse chove não molha típico das manhãs de domingos. Tem domingos que eu detesto, deveriam ser terminantemente proibidos pelos médicos na vida da gente. Mas ninguém consegue pular, e a segunda opção nunca foi muito atrativa, carrega em si uma perspectiva frustrante das coisas acumuladas e que nunca dão certo (o doce sabor das segundas-feiras).
Enquanto tento exaustivamente correr atrás do que sou, tento contabilizar as perdas do que deixei de ser. Quem diria que viver ia dar nisso? Queria poder guardar os dias que se passaram com a devida medida de suas alegrias. Mas é aí que a mente nos trai. Os anos já não parecem tão distantes, as dores já não são tão doídas, e no fim das contas vale bem mais o que a gente ainda carrega no peito mesmo depois do atropelo.
Queria ao menos um terço da doçura de Belchior ao cantar as tristezas, me enxergo tão bem nas suas linhas. Sou sempre mais intensa, mais amarga. Parece até que gosto de descontar as frustrações nas palavras, como se elas tivessem alguma culpa nisso tudo. É, esses casos de amor e recomeço, eu nunca entendi bem. A única certeza que carrego é que ainda tenho muitas coisas, muitas coisas a dizer.  

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