(Leia ao som de Fotografia 3x4, de Belchior)
Esses dias me dei conta de que o tempo é o nosso maior inimigo.
Seja para o bem, seja para o mal, sempre atua contra a nossa vontade.
Parece uma força cósmica, coisa de outro mundo, lei de Murphy, ou
aquele velho jogo de ser do contra mesmo.
Hoje eu me vi só, como há muito tempo não me via. Não aquela
solidão de não ter alguém, é aquela falta de si, de estar em si
plenamente, completamente. Nessas horas só me restam duas coisas:
dormir ou escrever. Por isso estou aqui, também por autocobrança,
não posso abrir mão do que já fui só por estar bem melhor com o
que me tornei.
Sobre ser, estar, tenho aprendido muito. Ainda não sei o
suficiente, mas nada melhor do que ver o carro andando. Ouço
Belchior como a última certeza que o domingo pode me oferecer.
Também para acalentar a alma inquieta de quem não se contenta,
descontentamento meu, nunca me abandona.
Queria quantificar em palavras os últimos anos. Mas não consigo
dizer ainda se isso é possível. Será mesmo que é preciso? Me fiz
essa pergunta depois de mais um acesso súbito de falta de juízo. O
desespero me acompanha desde ontem, porque essa inquietude sempre que
o passado resolve fazer uma visita?
Algumas coisas, por mais resolvidas que pareçam, nunca se resolvem
de fato dentro da gente. Daí fica esse chove não molha típico das
manhãs de domingos. Tem domingos que eu detesto, deveriam ser
terminantemente proibidos pelos médicos na vida da gente. Mas
ninguém consegue pular, e a segunda opção nunca foi muito
atrativa, carrega em si uma perspectiva frustrante das coisas
acumuladas e que nunca dão certo (o doce sabor das segundas-feiras).
Enquanto tento exaustivamente correr atrás do que sou, tento
contabilizar as perdas do que deixei de ser. Quem diria que viver ia
dar nisso? Queria poder guardar os dias que se passaram com a devida
medida de suas alegrias. Mas é aí que a mente nos trai. Os anos já
não parecem tão distantes, as dores já não são tão doídas, e
no fim das contas vale bem mais o que a gente ainda carrega no peito
mesmo depois do atropelo.
Queria ao menos um terço da doçura de Belchior ao cantar as
tristezas, me enxergo tão bem nas suas linhas. Sou sempre mais
intensa, mais amarga. Parece até que gosto de descontar as
frustrações nas palavras, como se elas tivessem alguma culpa nisso
tudo. É, esses casos de amor e recomeço, eu nunca entendi bem. A
única certeza que carrego é que ainda tenho muitas coisas, muitas
coisas a dizer.

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