Dizem que a vida é um sopro, Zé. Eu a vejo como um peso. Uma
bagagem de mão que vai aumentando a cada estação. É que nós
somos resultado de tudo aquilo que passamos e de tudo o que deixamos
de ser. E é aqui que aquela velha regra se cumpre: sempre que algo
novo é adquirido, temos que abrir mão de algo que já não nos
serve mais. Por mais que a mala sobrecarregue. Tudo bem, às vezes, a única
opção que nos resta é pagar o excesso. Mesmo abrindo mão. Mesmo
deixando de ser, e ter.
Cada vez mais as verdades do mundo se apresentam para mim. Cada vez
mais eu enxergo que o passado fez um estrago que julgo ser irreparável. Mas ninguém
me disse que isso precisa mesmo de reparo. Talvez a vida seja isso.
Constatar o erro e ver o que ele foi capaz de causar em nós.
Algumas coisas ainda doem sem explicação, Zé, doem porque
resolveram que era o melhor a se fazer. A minha cabeça tem
trabalhado o dobro e o corpo tem sofrido pra acompanhar. Sim, Zé, já
estou naquela fase em que a idade deixa de ser mérito e passa a ser
desculpa.
Não consegui acompanhar bem o desenrolar dos últimos anos, mas
algo me diz que aquele controle que eu imaginei ter um dia nunca vai
acontecer de fato. Então, essa é minha nova condição de
realidade: um dia de cada vez, uma semana para sobreviver e um ano
para acabar. O depois, a gente inventa. Ou espera. De uma forma ou de
outra, ele vai dar o seu jeito de chegar.

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