Não sei, Zé, mas acho que esse ano me ensinou que a morte é a
única certeza que temos na vida. Me ensinou também que essa é a
única certeza que não conseguimos lidar. Perdi muita coisa, Zé.
Muita gente também. Vidas que guardavam em si muito do que eu já
fui, muito daquilo que eu gostava de ser. Veio a dona morte e me
mostrou que nada, nem ninguém pode mudar a sua vontade.
Não é que ela me assuste, o que me assusta é a falta de tato das
pessoas para com ela. Por que é tão difícil lidar com essa
situação? Embora me entristeça, não é algo que me paralisa.
Consigo enxergar o correr da vida depois de um derradeiro assim, mas
não é algo que acontece com todo mundo.
O que tem me afetado, Zé, e tem incomodado cada vez mais é essa
angústia que já faz morada no peito. Essa falta de viço quando o
dia amanhece, quando a vida me exige nada mais do que o aceitável:
que eu viva. Não quero, Zé. Não tenho vontade. Me sombram medos e
receios, e o que eu sinto é uma paralisia descomunal diante daquilo
que o mundo tem a me oferecer. Ao mesmo tempo em que vivo o futuro,
peço que o tempo se arraste para que eu adquira um pouco mais de
coragem para enfrentar o dia de amanhã.
São tempos difíceis, Zé. Muitas mudanças estão por vir. Você
sabe o quanto elas me inquietam. O quanto isso afeta o equilíbrio
que, a muito custo, tento manter. Tenho morrido mais depressa, Zé. A
sensação que tenho é a de que estou vivendo a vida mais depressa,
sem necessariamente cumprir as etapas que me são exigidas.
Já não espero tanto, até por que me falta tempo pra tudo, me
sobram frustrações. Quero morrer para descansar, Zé, não consigo
mais dar conta do cansaço dos dias. Minha falta de ser tem me
impedido de ver o que ainda posso ser. Sou pura dúvida dentro das
minhas escassas certezas. Sou cansaço também. Vontade de não
acordar toda manhã. Mas continuo cumprindo os dias, como a última
alternativa que me resta.

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