quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sinal Fechado II.


  Porque a vida é assim, Zé. Tem dia que simplesmente a gente se dá por vencido. Se convence de que não adianta lutar contra a maré e deixa ser levado pela correnteza. Ah, Zé, benditas as horas de sossego, bem-vindas as notícias que chegam para nos por um sorriso na cara e plantar uma sementinha de esperança no peito. Confesso já estar incomodada com a nudez dos campos da minha alma, parece que a fé anda abalada, embora eu a reforce todos os dias com orações e preces.
O mundo é injusto. Cruel e convencido, não costuma dar o braço a torcer. E por mais que a gente tenha consciência das nossas faltas, ainda somos atropelados pelos excessos alheios. Te digo sem medo, Zé, enquanto tento reconhecer minha pequenez diante das coisas, sou engolida pela soberba e prepotência dos outros.
Me vejo cada vez menor nesse mundo que me exige ser grande, forte e ostensiva. Eu não, Zé, quero a tranquilidade da vida nos dias que me restam. Quero poder desfrutar mais da calma que a vida me ensinou a procurar nas coisas que me cabem. A vida em si tira muito da gente, por isso eu faço gosto por tudo o que permaneceu. Sem excessos, Zé, já sou exagerada por natureza.
Quero menos aperto no peito e mais leveza nos passos. Saber esperar sem morrer na demora. Ser feliz mesmo na tristeza que o dia reserva. Fazer por onde, mesmo sem atingir as expectativas. E viver, Zé, sem que me doa essa parte.   

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