"Olha, meu bem
É tudo simples,mas a gente insiste em complicar
A vida é curta, eu sei
Mesmo assim ainda há tempo
Para aproveitar as coisas..."
(Dandis)
Obrigada pela visita de ontem, Zé. Deus ouviu minhas preces. Estávamos bem, não me recordo ao certo o porquê, mas estávamos como deveríamos estar. É que não existe mais um motivo para essa diferença, não é mesmo?! Esse abismo não nos leva mais a nada. Não há um vínculo, nem um meio de reatar pontes já desativadas.
A
minha crise existencial deu uma trégua. Não é que ela vá embora
de vez, mas se acomoda e tira um cochilo no lado esquerdo da alma, de
forma que o peso nas costas é um pouco aliviado. E isso já me é
mais do que satisfatório.
Zé,
nós não podemos mais manter essa falha. Quer dizer, assim eu a
vejo. Você, eu não sei, pode ser que esse calo nem te incomode. O
meu, aperta e sangra quase sempre. Band-aids e anti-inflamatórios
não resolvem mais. Durante muito tempo eu deixei que as coisas
acontecessem. Que a dor doesse até cansar. Agora sou eu quem está
cansada.
A
vida seguiu, Zé, rápida como eu pedi. Até demais. Parece que o
tempo gosta de velocidade, tem passado sem medir as consequências.
Estou tentando frear. Conter essa pressa, não sei. Talvez agora eu
queira a vida mais contida, comedida e ensaiada. Chega desse roteiro
solto, gosto de cenas ensaiadas, enredos presos, fiéis à história
que se quer contar. Chega de licença poética.
Tenho
pedido a Deus uma quantidade imensurável de paciência e paz de
espírito. E às vezes eu acho que nem toda a paciência do mundo é
capaz de me trazer a paz de que necessito. Ainda me vejo velha e
cansada para aquilo que quero, mas tenho listado motivos suficientes
para acreditar que assim devo fazer.
Antigos
laços nem sempre são os mais fortes, Zé. Alguns se mantiveram
porque o tempo quis assim, mas hoje percebo o quanto eles são
frágeis e não conservam em si a relevância que deveriam. Engraçado
como alguns laços mais jovens me concedem uma segurança bem maior
para ser o que sou.
O
mundo enlouqueceu, Zé. Eu recobrei a razão, redobrei o cuidado,
reinventei minha forma de enxergar as pessoas. Tento não julgar.
Quando julgo, tento me punir por assim estar fazendo. Tenho calado
ainda mais. Verdade seja dita, quanto menos souberem, menos terão do
que falar, e mais para especular. E de que mais é feita a vida, Zé?!
Especulações.
Espero
terminar a semana bem, vou me policiar para assim ser. Tenho me
obrigado a ignorar as intempéries do dia a dia. Quando não temos
mais um porto seguro, precisamos descobrir a graça de flutuar, não
só com o intuito de sobreviver, mas com a certeza de que é possível
tirar algo bom disso.

Nenhum comentário:
Postar um comentário