Às
vezes eu me acumulo nos dias. Deixo toda a inquietação e ansiedade
amontoadas naquele canto vazio da alma e me ocupo apenas em cumprir a
rotina. A vida também é isso. Ou melhor, quase sempre se resume a
isso. Mas aí chega o limite. O limiar básico e vital que nunca sei
mensurar a medida certa, a quantia exata. Sou sempre surpreendida
pelos estragos que meus excessos provocam.
Não
durmo há dois dias. Nem como. Tenho sonhos terríveis nos intervalos
em que sou vencida pelo cansaço. Mas detesto vivê-los. Preferia
romper a noite sem ser empurrada de volta ao passado, me vendo sempre
obrigada a consertar as coisas. E me mata o cansaço de reviver
aquilo que já não se pode mais ter.
São
dias perdidos. Dias em que me obrigo a poupar o mundo da minha
existência. Mas não posso fazer o mesmo comigo, de modo que me
odeio ainda mais nesse intervalo de tempo em que só tenho meu pior a
oferecer. Não costuma durar muito, mas já consigo constatar as
fissuras. Algumas falhas tornam-se irreparáveis com o passar dos
anos. Permanecem. Ou melhor, se instalam e julgam ser parte
integrante do projeto originário.
Eu
sou teimosa. Tento rebater. Distorcer. Revidar. Então, não encontro
mais forças. E aceito, por fim, tentando justificar a minha falta de
controle. Sabe Deus como tenho levado esses dias. Talvez a minha
metáfora de vida me ajude um pouco. Console o meu lado infantil,
frustrado e petulante. Quase sempre me imagino na cena. Assistindo a
tudo isso passar numa TV caixote, em meados dos anos sessenta. São
só dias longos. Estômago embrulhado. E sonhos amargos.

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