terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sobre cigarros curtos, amores longos e chuvas de verão.

    


    Às vezes eu me acumulo nos dias. Deixo toda a inquietação e ansiedade amontoadas naquele canto vazio da alma e me ocupo apenas em cumprir a rotina. A vida também é isso. Ou melhor, quase sempre se resume a isso. Mas aí chega o limite. O limiar básico e vital que nunca sei mensurar a medida certa, a quantia exata. Sou sempre surpreendida pelos estragos que meus excessos provocam.
    Não durmo há dois dias. Nem como. Tenho sonhos terríveis nos intervalos em que sou vencida pelo cansaço. Mas detesto vivê-los. Preferia romper a noite sem ser empurrada de volta ao passado, me vendo sempre obrigada a consertar as coisas. E me mata o cansaço de reviver aquilo que já não se pode mais ter.
    São dias perdidos. Dias em que me obrigo a poupar o mundo da minha existência. Mas não posso fazer o mesmo comigo, de modo que me odeio ainda mais nesse intervalo de tempo em que só tenho meu pior a oferecer. Não costuma durar muito, mas já consigo constatar as fissuras. Algumas falhas tornam-se irreparáveis com o passar dos anos. Permanecem. Ou melhor, se instalam e julgam ser parte integrante do projeto originário.
    Eu sou teimosa. Tento rebater. Distorcer. Revidar. Então, não encontro mais forças. E aceito, por fim, tentando justificar a minha falta de controle. Sabe Deus como tenho levado esses dias. Talvez a minha metáfora de vida me ajude um pouco. Console o meu lado infantil, frustrado e petulante. Quase sempre me imagino na cena. Assistindo a tudo isso passar numa TV caixote, em meados dos anos sessenta. São só dias longos. Estômago embrulhado. E sonhos amargos.    

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