Te
escrevo enquanto a voz de Belchior e o barulho da chuva me fazem companhia, Zé. Como os dias têm corrido. Como o tempo tem passado
numa frequência difícil de acompanhar. O tempo andou mexendo comigo
sim, o poeta me confirma isso em sua canção.
Sabe,
Zé, temo estar perdendo muito tempo em coisas das quais ainda não
tenho bem certeza se me farão feliz. Não tenho total certeza de que
elas são certas. É uma dúvida besta que me ocorre às vezes.
Também pode ser porque o mundo tem me cobrado. Quem diria que ser
gente grande era tão chato?! Saudades da época em que a chuva caía
e eu só me ocupava da minha cama, das minhas histórias e sonhos. Tenho
tido tão pouco tempo para isso.
Tudo
é uma questão de tempo, Zé. Tempo de rir, tempo de chorar. Tempo
de ir, tempo de ficar. Tempo de seguir em frente, tempo de recuar.
Tempo de usufruir, tempo de se preparar. Tempo de espera. Estranho
isso, mas sim, há tempo só para esperarmos. E julgo ser o tempo
mais difícil de se cumprir. É da gente essa pressa da vida, do
novo, do sonho, do eterno. E tudo é tão efêmero.
O
tempo tem sido de longa espera, Zé. De medo também. Toda espera
carrega em si um pouco de insegurança. Medo de nunca chegar, ou de
chegar e não ser o que se esperava. Já me aconteceu isso, Zé. E
talvez por isso mesmo minha inconsistência seja ainda maior. Mas não me
desespero. Não me permito descontrole. Deus tem o controle de tudo e
mesmo quando julgo não saber, Ele já sabe do melhor. Eu acredito
nessa força maior e melhor que me põe para dormir todas as noites,
e me desperta para o dia que está lá fora.

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