Não
sei o motivo certo, Zé, mas de vez em quando me bate essa descrença
nas coisas. Esse cansaço de tudo. É algo que ainda não consegui
controlar, embora já tenha melhorado muito.
Vai além da minha vontade. Chega sem avisar. Quando me dou conta, já
estou afogada em outra crise existencial daquelas. E não me resta
outra opção a não ser esperar o dia acabar. O cumprimento dos
ciclos. De que mais é feita a vida que eu achei que teria?
Sabe,
Zé, eu tenho medo. Muito medo. Medo de tudo o que quero e de tudo o
que ainda está por vir. Medo de não dar conta ou, pior, medo de
nunca chegar. Porque, às vezes, eu tenho a leve impressão de que
já é um pouco tarde demais.
Queria
não enlouquecer aos poucos, Zé. Queria manter o ritmo. Acreditar
mais e mais nessa força que carrego aqui dentro. Queria não
vacilar, nem me abalar com o exterior. Mas cá estou eu, lamentando a
sorte de ser quem eu sou. Que mais eu tenho além disso?
Nada
de muito grandioso tem acontecido, Zé. Não que eu assim queira, eu
gosto da passividade da vida. Já te falei que a felicidade também
mora aí. Mas me incomoda essa espera incerta. Você sabe, Zé, as
certezas são tão escassas nessa altura da vida.
Eu só temo estar
muito perdida. Temo a falta de tempo. E a perda também. Deus queira
que essa minha inconsistência logo passe. Tenho guardado forças
para outras batalhas. Não consigo duelar comigo mesma. Por que você
sabe, eu sempre perco.

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