Espero
menos das coisas, Zé. Já não acredito em um plano estreito e certo
para ser feliz. Acho que aí mora o grande segredo da vida. Saber
encontrar a felicidade mesmo quando ela se esconde.
Nem de longe a
vida que levo hoje me faz ser cem por cento daquilo que quero. Mas me
conforta saber que já sou um pouco mais do que era ontem e um pouco
menos do que não posso mais ser. A vida é isso. Deixar ser enquanto
os limites nos permitem. Não forçar o retorno, não estender o
alcance. Aceitar a medida, caber no estrito espaço que nos é
oferecido.
Eu
já quis muito, Zé. Já esperei muito de mim. E depositei
frustrações num corpo que já não era meu. Não me cabia mais. Só
tarde me dei conta disso. E grande parte do mundo ainda nem percebeu.
Eu
não vejo problema algum em desistir daquilo que já se quis um dia.
Acho que recuar pode ser tão reconfortante quanto ultrapassar a
barreira do incômodo. De alguma forma, haverá o transpasso, com ou
sem dor.
Sim,
Zé, a vida passa mesmo que a contragosto. Um ou outro ficam perdidos
em meio àquilo que foram e ao que já não podem mais ser. Nem todo
mundo aceita a dor de já não ser mais. Mas, ainda assim, todo dia
morre um pouco da gente dentro da nossa existência.
E eu não falo
disso com todo o peso que a morte costuma carregar em seus contornos.
Como toda medida, toda vida carrega em si uma parcela de morte. Sua
sentença. Sem anulações. Cada dia é um novo começo. Cada noite
nos sentencia com outro final.

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