quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Jazigo.


    Espero menos das coisas, Zé. Já não acredito em um plano estreito e certo para ser feliz. Acho que aí mora o grande segredo da vida. Saber encontrar a felicidade mesmo quando ela se esconde. 
    Nem de longe a vida que levo hoje me faz ser cem por cento daquilo que quero. Mas me conforta saber que já sou um pouco mais do que era ontem e um pouco menos do que não posso mais ser. A vida é isso. Deixar ser enquanto os limites nos permitem. Não forçar o retorno, não estender o alcance. Aceitar a medida, caber no estrito espaço que nos é oferecido.
    Eu já quis muito, Zé. Já esperei muito de mim. E depositei frustrações num corpo que já não era meu. Não me cabia mais. Só tarde me dei conta disso. E grande parte do mundo ainda nem percebeu.
    Eu não vejo problema algum em desistir daquilo que já se quis um dia. Acho que recuar pode ser tão reconfortante quanto ultrapassar a barreira do incômodo. De alguma forma, haverá o transpasso, com ou sem dor.
    Sim, Zé, a vida passa mesmo que a contragosto. Um ou outro ficam perdidos em meio àquilo que foram e ao que já não podem mais ser. Nem todo mundo aceita a dor de já não ser mais. Mas, ainda assim, todo dia morre um pouco da gente dentro da nossa existência. 
    E eu não falo disso com todo o peso que a morte costuma carregar em seus contornos. Como toda medida, toda vida carrega em si uma parcela de morte. Sua sentença. Sem anulações. Cada dia é um novo começo. Cada noite nos sentencia com outro final.

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