Acho
que vim para essa vida a muito contragosto, Zé. Tanto que a morte
não me assusta. Não a encaro como algo ruim. Sempre encontro uma
leveza tão grande no deixar de ser, me soa como sinônimo de
sossego. Sei que nem sempre ela chega com aviso prévio. Às vezes
ela até rouba um tempo que julgávamos essencial. Mas quem somos
para dizer o que deve ou não permanecer?
Sabe, as noites me têm
sido inquietantes como há muito não eram. Essa vontade de ser algo
além não tem me permitido ser o que já sou. E tenho partido sem
realmente ter provado tudo aquilo que desejava. Ai, Zé, viver assim
me parece tão desnecessário. Eu só gostaria de viver a medida
exata do tempo, sem acumular passado, apressar futuro e desprezar
presente.
Você tem povoado minha mente e eu tenho fugido porque já
me é de costume. Também porque não enxergo saída. Esse caminho
não me permite retorno. É só uma linha reta, infinita. E quanto
mais eu corro em direção ao fim, mais eu me distancio dele.
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