sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não há segredo nenhum.

   

"Apaga a dor, já passou
Abre a janela feliz
Olha que o vento soprou
Bem mais cor do que você quis..."
-O. Montenegro


   Te escrevo enquanto Oswaldo invade minha alma. Faz tempo que não te vejo, Zé, quanta saudade, quem diria! Por isso resolvi guardar dez minutos desse dia findo pra te deixar a par dos últimos acontecimentos.
    E não vou começar dizendo que o ano não foi dos mais fáceis, porque eu tenho plena consciência de que há muito eu não me sentia confortavelmente feliz nos limites que a vida me propôs. Lembra daquela nuvem densa que ficava sobre a minha cabeça? Então, Zé, se desfez, mandei para longe toda tempestade.
    Sabe aquela tristeza da sala de estar?! Tratei de realocá-la, Zé, num canto esquerdo da alma que não fica à vista de ninguém e só cabe a mim dar cobre quando a situação muda de cor. E toda tristeza que me chega de surpresa vai parar no mesmo canto, porque as metas do dia não me permitem mais desgastar o tempo nos excessos da minha existência.
   Os dias encurtaram, Zé, a vida assumiu o controle do velocímetro e eu tenho sido vítima constante da minha pressa de viver. Não que isso seja ruim, mas não é de todo bom. Ainda gosto de ter tempo para ver o sol se pôr naquele canto inabitável da minha imaginação, que é meu e de mais ninguém. Gosto de respirar e sentir o ir e vir desse sopro de vida que movimenta a terra, e cumpre ciclos, e ordena o cosmo, e termina e começa pra nunca mais ter fim.
    Eu estou leve, Zé, estou serena. Em paz dentro da minha inquietude de ser eu mesma. Por mais difícil que já tenha sido viver para mim, hoje me soa mais sagrado poder abrir os olhos e ver mais uma vez, ouvir, falar, ser e sentir. Tenho agradecido bem mais do que pedido, embora ainda queira muito. Não tanto, Zé, minha vontade se contenta com o razoável. A felicidade também é isso.
    Depois de tantas despedidas, e pontos, e vírgulas, estou terminando meu começo. Assim entendo a vida que levo. Tenho me preparado para o que vem com a certeza de que todo passado foi válido. Não me arrependo mais, Zé, os dias seguem para o nosso próprio bem.
    E se eu esbarrar com alguém lá na frente, que eu possa ao menos oferecer um sorriso. Uma parte do meu melhor. O pior já passou, Zé, sinto isso com toda a certeza que os dias tratam de depositar nas nossas contas. E eu só queria que você soubesse que, apesar das faltas, aquela alegria inatingível hoje me visita com muito mais frequência, e me prova a cada visita que nem sempre é muito tarde, e amanhã é um novo dia, como outro qualquer, mas novo e suficiente para ser melhor.   

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