segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sobra saudade.


Juliana Pina (Traçando)

Eu costumo dizer que sou feita de saudades. Não só das coisas que já vivi, como daquelas em que nunca habitei e muito provavelmente nunca virão a acontecer. Sou feita de toda ausência daquilo que já fui e já quis ser um dia.
Não consigo acreditar na ideia de ser a saudade de alguém, sei lá, de todos aqueles com quem já convivi, sinto que trouxe bem mais saudade do que deixei vontades, por isso mesmo acredito que os ciclos se fecharam para não se repetirem.
É mais ou menos como aquela premissa que vi outro dia. A gente não volta mais ao que era. E mesmo se voltar, a gente não volta como era. Não si é o mesmo pelo resto da vida. E aquele interesse que você acreditou poder carregar pelo resto da vida pode sumir em questão de segundos.
Talvez por isso mesmo eu tenha tamanha aversão a reencontros. Prefiro a certeza fria das vontades sufocadas. Certos desejos não valem o peso das consequências. Não que isso nunca me ocorra. Quase sempre tenho dessas vontades, mas hoje sei pesar bem melhor as sequelas de (re)viver.
Saudade pode trazer um pouco de arrependimento também, sua origem é incerta na maior parte das vezes. Nem por isso a gente deixa de sentir. Nem por isso a gente esquece de viver, porque a vida nos obriga a isso também.
Eu sou feita de saudades. Do que fui e deixei passar. Do que quis ser e hoje sei que não mais posso. Do que ainda posso, mas não sei se consigo. Sou uma sucessão de eus, vivendo entre aquilo que fui e o que ainda posso ser. E no fim do dia, quase sempre eu tenho a impressão de que é saudade demais pra uma vida só. 

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