Juliana Pina (Traçando)
Eu costumo
dizer que sou feita de saudades. Não só das coisas que já vivi, como daquelas em
que nunca habitei e muito provavelmente nunca virão a acontecer. Sou feita de
toda ausência daquilo que já fui e já quis ser um dia.
Não consigo
acreditar na ideia de ser a saudade de alguém, sei lá, de todos aqueles com
quem já convivi, sinto que trouxe bem mais saudade do que deixei vontades, por
isso mesmo acredito que os ciclos se fecharam para não se repetirem.
É mais ou
menos como aquela premissa que vi outro dia. A gente não volta mais ao que era.
E mesmo se voltar, a gente não volta como era. Não si é o mesmo pelo resto da
vida. E aquele interesse que você acreditou poder carregar pelo resto da vida
pode sumir em questão de segundos.
Talvez por isso
mesmo eu tenha tamanha aversão a reencontros. Prefiro a certeza fria das
vontades sufocadas. Certos desejos não valem o peso das consequências. Não que
isso nunca me ocorra. Quase sempre tenho dessas vontades, mas hoje sei pesar
bem melhor as sequelas de (re)viver.
Saudade pode
trazer um pouco de arrependimento também, sua origem é incerta na maior parte
das vezes. Nem por isso a gente deixa de sentir. Nem por isso a gente esquece
de viver, porque a vida nos obriga a isso também.
Eu sou feita
de saudades. Do que fui e deixei passar. Do que quis ser e hoje sei que não
mais posso. Do que ainda posso, mas não sei se consigo. Sou uma sucessão de eus,
vivendo entre aquilo que fui e o que ainda posso ser. E no fim do dia, quase
sempre eu tenho a impressão de que é saudade demais pra uma vida só.

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