domingo, 20 de setembro de 2015

Fado.


Zé, achei que as coisas mudariam. Achei que essa história de mentalizar o bem valia mesmo à pena, e logo na frente a gente via a vida se encaixar e tomar um rumo. Eu estava me esforçando, Zé, estava empenhada. Buscava força todas as noites antes de dormir, e reforçava a promessa toda vez que levantava.
Mas a verdade é que de nada tem adiantado. Pior, Zé, sempre esbarro num contratempo, um desarranjo no meio do caminho que só comprova a minha falta de controle nessa história toda. Não consigo delimitar o sentido de nada mais, e por isso mesmo não sinto nada, Zé, e tudo me parece vivido de forma tão à toa.
Sabe, sempre ouvi dizer que coisas ruins acontecem por um motivo. Ou que lá na frente você será recompensado. Ou muito provavelmente você está pagando por erros passados. Que pode ser carma. Acerto de contas. Deus querendo te dar uma lição. E todas essas coisas que muito provavelmente você já se valeu para fazer alguém aceitar seu destino ou mesmo para justificar os seus próprios desarranjos.
Está tudo errado, Zé. Isso aqui está uma bagunça que nem a mais organizada das pessoas do mundo consegue dar jeito. Tá feio, sem graça, confuso também e totalmente descrente. Eu não consigo estabelecer mais nenhuma mínima ligação de fé entre aquilo que pretendo e o que consigo fazer para isso.
Não sei dizer se preciso de ajuda, Zé, sempre me virei tão bem sozinha. Também não consigo enxergar um lugar seguro para depositar meus medos e quem sabe assim encontrar uma solução. Estou presa a esse mar de nadas que me afoga na ânsia de finalmente poder ser o que quero.
Acordo sempre com o desejo vivo de cumprir o dia sem pesos. Vou dormir sempre com a certeza de que a vida me pesa demais. Ontem eu quis dormir pra não acordar nunca mais. Acordei com a mesma vontade, Zé. Meu maior problema esse. Vontades não me faltam. Mas eu nunca encontro coragem suficiente para leva-las adiante.  

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