Zé, achei que
as coisas mudariam. Achei que essa história de mentalizar o bem valia mesmo à
pena, e logo na frente a gente via a vida se encaixar e tomar um rumo. Eu
estava me esforçando, Zé, estava empenhada. Buscava força todas as noites antes
de dormir, e reforçava a promessa toda vez que levantava.
Mas a verdade
é que de nada tem adiantado. Pior, Zé, sempre esbarro num contratempo, um
desarranjo no meio do caminho que só comprova a minha falta de controle nessa
história toda. Não consigo delimitar o sentido de nada mais, e por isso mesmo
não sinto nada, Zé, e tudo me parece vivido de forma tão à toa.
Sabe, sempre
ouvi dizer que coisas ruins acontecem por um motivo. Ou que lá na frente você
será recompensado. Ou muito provavelmente você está pagando por erros passados.
Que pode ser carma. Acerto de contas. Deus querendo te dar uma lição. E todas
essas coisas que muito provavelmente você já se valeu para fazer alguém aceitar
seu destino ou mesmo para justificar os seus próprios desarranjos.
Está tudo
errado, Zé. Isso aqui está uma bagunça que nem a mais organizada das pessoas do
mundo consegue dar jeito. Tá feio, sem graça, confuso também e totalmente
descrente. Eu não consigo estabelecer mais nenhuma mínima ligação de fé entre
aquilo que pretendo e o que consigo fazer para isso.
Não sei dizer
se preciso de ajuda, Zé, sempre me virei tão bem sozinha. Também não consigo
enxergar um lugar seguro para depositar meus medos e quem sabe assim encontrar
uma solução. Estou presa a esse mar de nadas que me afoga na ânsia de finalmente
poder ser o que quero.
Acordo sempre
com o desejo vivo de cumprir o dia sem pesos. Vou dormir sempre com a certeza
de que a vida me pesa demais. Ontem eu quis dormir pra não acordar nunca mais.
Acordei com a mesma vontade, Zé. Meu maior problema esse. Vontades não me
faltam. Mas eu nunca encontro coragem suficiente para leva-las adiante.

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