Sabe, Zé, às vezes eu tenho quase
certeza de que estou no lugar errado. Quer infelicidade maior que essa? Viver
um erro e, por assim dizer, morrer nele a cada dia? Quase sempre essa ideia me
ocorre. Porque não consigo qualquer dose de felicidade e contemplação durante o
cumprir do dia. E lá se vai mais uma parte inutilizada de mim a cada noite que
cai.
Às vezes eu me enxergo como na
canção. Sou um rio de mágoas. Rio esse que acaba antes mesmo de terminar. Não
deságua, nem termina no mar. Sucumbe em mim e aprofunda-se. Enraíza. Me prende
ao erro de que tanto quero me livrar.
Estou
presa a uma vida que não é minha, Zé. Ou que não quero mais. É possível viver
aquilo que não nos pertence? Ao mesmo tempo em que estou presa a um passado que
só existe em mim, desejo como prece chegar a um futuro que me distancie disso
tudo.
Sofro
de urgências, Zé. Pereço nessa necessidade de viver tudo aquilo que ainda não
consigo. Morro mais porque morro sozinha. Não tenho amigos, nem refúgio seguro
para descansar minha dor. Por isso anda cansada, não consigo acompanhar o ritmo
da massa vivente.
Por não dizer, me escondo no
silêncio. E assim, me revelo em tudo o que não é dito. Minha dor não cabe na
casa da palavra, mas, quase sempre, aí faz morada. Não compreendo a essência
das esperas, Zé. Não sei respeitar a vontade do tempo. Talvez por isso a vida
me doa tanto. Talvez, pela mesma razão, eu nunca vá conseguir ser o que ainda
não fui e, por assim dizer, ser, um dia, inteira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário