Ai, Zé, por
fim consegui voltar ao meu ponto de equilíbrio. Mas não estou de todo
tranquila, pois sei que essa calmaria tem prazo certo para expirar. Como já era
de se esperar, fiz algumas escolhas e, por meio delas, abri mão de boa parte do
meu conforto. Mas é chegada a hora do sacrifício, chega de postergar
sofrimento. Chega de adiar futuro.
Zé, por mais
que eu tente ver o lado bom de tudo isso, confesso que o mundo nem sempre
conspira nesse sentido. Algumas palavras não valem a pancada, mas, ainda assim,
doem na alma. Tenho recebido muitas, sem maldade, sem contrapeso, mas a gente
quase nunca mensura o peso do que diz. No fim das contas, só sente quem recebe.
As que recebo têm me doído. E as que nunca chegam, me doem mais ainda.
Todo mundo
precisa de amigos, Zé. De conversa, de consolo. Também preciso, mas não
encontro. E sinto, por assim dizer, que o peso do meu silêncio me atrasa os
dias, mesmo ele correndo na direção oposta. Zé, a vida tem corrido, e eu me
sinto em câmera lenta. Tem me faltado o lado claro de tudo, e por vezes eu só
enxergo aquilo que não deu certo. E não é justo, Zé, nem humano. Como ir
adiante persistindo nas lembranças erradas?
Eu tenho me
gastado nos lugares errados. Eu tenho me agarrado ao lado distorcido da
história. Eu tenho sido refém do meu medo de ser alguém. E se, de fato, não é
isso o que sou? Eu tenho medo de mim, Zé, mas tenho mais medo do que sou para
os outros.
Ser livre dá
trabalho, Zé, ser dono de si consome o nosso juízo. Quanto mais liberdade me é dada,
mais eu me prendo a valores, ao que os outros dizem, e acham, e sentem. O que,
no fim das contas, não me serve de nada, pois o que acham de mim só diz
respeito a eles.
Zé, a vida é
inversamente proporcional à verdade. Quem mais vive é quem menos sabe. E, a
partir do momento em que se descobre isso, você está fadado a viver cada vez
menos.

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