segunda-feira, 11 de maio de 2015

Se fosse resolver.


     Oi, Zé, eu sei que estou sumida. Na verdade, nem era para eu estar aqui, pois a minha agenda quilométrica nem permite. Mas cá estou eu, depois de um dia em que tudo o que deveria dar certo não deu. É, segunda-feira, nem vou ousar te defender, porque hoje você foi tipicamente insustentável. Mas não era disso que eu queria falar, Zé, era da vida. Ou daquilo que constrói os dias e, a cada um de nós, só cabe resguardar, naquele velho juízo de valor, o que serve e o que deve ser descartado logo. 
     Minha vida tem corrido, Zé. Com a pressa que eu tanto pedi, mas sem a reciprocidade que eu acreditava que teria quando esse novo tempo chegasse. Acho que tenho visitado mais o consultório médico do que qualquer outro amigo, e pra ser mais sincera, acho que ele é o único “amigo” realmente preocupado com o que se passa aqui. Ou pelo menos ele demonstra. O que não passa do dever dele como profissional. Mas é a verdade, Zé.
     Não, nem de longe isso é um queixa, até porque, 90% da culpa de toda essa história é minha, e eu assumo sem maiores dramas. Mas as minhas escolhas têm me distanciado tanto de tudo aquilo que vivi, que acredito estar inventando um novo começo para uma história que eu nem escrevi um final. 
     Mas, Zé, não era disso que eu queria falar também, era da angústia aqui de dentro. Como diz Oswaldo, “se fosse resolver, iria te dizer, foi minha agonia”. Hoje foi só isso, Zé. Um dia tão vazio em si e tão pesado ao mesmo tempo, que até naquele raro momento que tiro para espairecer, pensei mais do que as 24 horas antecedentes.   
     Estou sofrendo com esse regime literário, Zé. Essa falta de tempo que eu tanto pedi hoje me tira do sério. E qual será o próximo passo? Bem, eu tenho tentado organizar as ideias. Eu tenho me empenhado mais e mais em conseguir alcançar aquele equilíbrio mínimo entre o que eu realmente necessito e aquilo que quero ser. Eu quero mais sorrisos, Zé. Noites tranquilas. Rotina cumprida à risca. Mas quero meus 15 minutos de sossego pra falar com você. Te contar o meu dia ou sobre a última ligação que recebi.  Quero coisas insignificantes cheias de significados. 
    Hoje eu fiquei triste, Zé. Mas, pela primeira vez em muito tempo, por motivos realmente importantes, mas nem tão relevantes assim. Ainda ando preocupada, ansiosa, receosa, e muito provavelmente eu não vá atender ao telefone da próxima vez. Não é por medo, Zé, nem orgulho. Cá dentro eu só acho que ainda não chegou o tempo daquilo que eu pedi um tempo.
     Também não vou me ocupar em adivinhar futuro, nem pretensões. Descobri que sou uma péssima adivinha, Zé, e talvez a pior das profissionais na minha área. Será que posso fechar pra balanço, Zé? Será que tem jeito essa insolvência aqui dentro? Tenho medo de ser eu mesma, Zé. Mas tenho mais medo ainda de ser o que as pessoas esperam de mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário