quinta-feira, 14 de maio de 2015

nº 37.

    

   Se é verdade que devemos aprender com os nossos erros, de outra coisa eu tenho certeza, Zé: não podemos nos esquecer deles jamais. Confesso que o passar dos anos aquietou muita coisa aqui dentro. Ontem, depois de uma conversa distraída e que há muito não tinha, recordei um tempo não lá tão feliz.
     A gente sofre por tão pouco, Zé. E só o tempo pra ensinar o certo e o errado, o justo e o aceitável. Confesso que andava um tanto incomodada com certas decisões que havia tomado. Acreditava estar sendo um tanto dura demais com o passado e o presente, temendo estar causando mudanças drásticas no meu futuro. Mas bastou essa conversa pra reviver muita coisa morta em mim. Aqui jaz um mausoléu do que fui. E pensar que já fui tanta coisa e não sou mais. 
    Por mais que eu tente não guardar ressentimento, promessa feita quando a realidade resolveu me dar uma surra e eu - como derrotada convicta, aceitei sem mais reclamar - acredito que certas cicatrizes continuam a doer. E não tem remédio nem tempo certo no mundo capaz de mudar isso. 
    Zé, meu passado tem vida própria e, volta e meia, faz questão de lembrar isso. Não que me atinja. Não que mude a sequência dos meus dias, meu humor, meus planos ou minha trilha sonora. Faz tempo que me livrei de tudo aquilo que me pesava, e esse fardo eu não carrego mais. Também não dou margem para uma visita, um cumprimento de velhos conhecidos, uma nota de nostalgia para compor o dia. 
     Pra mim, o passado é como aquele sapato velho, mas pouco usado, aperta, machuca e dá calo. E por mais inútil e traiçoeiro que pareça, você guarda no canto mais esquecido do armário pra, quem sabe um dia, usar. Porque acredita que uma hora ele cede, ou você emagrece, ou alguma coisa assim que te faz acreditar numa mudança. Mas no fundo, bem no fundo, no mesmo canto escondido da alma, você sabe que não tem jeito. Não existe mágica, nem mudança, vai ser sempre um sapato bonito, mas sempre aquele que dá calo. 
    Ah, Zé, assim como eu detesto despedidas, eu temo reencontros. Nem sempre dá pra saber quando eles acontecem e não é sempre que estamos no nosso melhor. Hoje mesmo, simplesmente não estou disposta. Resolvi por bem ouvir música e te escrever, pra só então viver a vida anotada à risca na agenda. 
    Eu tô bem, Zé. Sem acúmulos, sem excessos. Ando só com falta de tempo pra dar conta de tudo o que anseio. Ainda tenho uns medos bobos da vida, mas finjo que não os vejo, então tá tudo certo. Não existe mais intriga com o passado, Zé, convivo bem com ele pela simples e consoladora certeza de já não me servir mais.  

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