sábado, 21 de fevereiro de 2015

"O inferno são os outros". (Sartre)


Eu não queria te odiar. Veja bem, acho ódio uma palavra pequena demais para carregar um sentimento tão pesado. Nele cabe a raiva cega de quem já foi enganado. Cabe um céu estrelado de decepções. Cabe dor engarrafada e também vergonha ressentida. E um punhado de remorso que a gente traz misturado à poeira do caminho. Cabe até amor, já dizia o músico. Altas doses de confiança perdida e fortes desejos de voltar no tempo.
Cabe uma vida inteira, ou só o fim dela. O começo, bem, ficou perdido, não tem mais tanta importância se já não nos leva a lugar algum. Mas eu não queria te odiar. Assim desse jeito maníaco de quem pressente a cólera só de avistar. Eu não queria ter medo de receber visitas do passado. Nem me envergonhar do que vejo por trás do meu eu em frente ao espelho.
Eu não queria te odiar, pois isso me faz lembrar que me arrependo de muita coisa, e de que eu não me importaria nem um pouquinho de te ver pagar por todos os seus erros. Eu não quero ser má, longe disso, ainda estou pagando pelos meus. É o que acontece quando fazemos escolhas. Lidamos com as consequências. O resto é pura frustração.
Mas ainda assim eu te digo, eu não quero te odiar e essa é minha prece de todas as noites, na trilha contada do meu rosário. Não quero, porque te odiar é manter vivo em mim aquilo que não volta e nem existiu, e a gente não deve carregar nada do que não precisamos.
Eu não quero te odiar porque não preciso de você nem para me fazer rir, nem chorar, ou pra dizer que devo sorrir mais. Eu não quero sorrir. Nem pra você, nem para o garoto da esquina, nem para o porteiro do prédio, ou pra senhorinha da casa amarela.   
Não quero sorrir e não vou. Nem quero te odiar, mas odeio e não nego, mesmo sabendo que ódio é uma palavra muito pequena de peso gigante.  E como pesa na frase. Logo assim, entre o parágrafo e o ponto final. Só Deus sabe de quantos pontos finais ainda vou precisar pra decantar de vez esse ódio da alma, mas a gente espera e assim, quem sabe, por desuso ou insistência, depois de tanto dizer que não, o ódio se canse, vire outra coisa, descanse ou desencante... Vá fazer morada em outra.

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