E se em alguma
coisa resultar todo esse sofrimento, que seja para ensinar a priorizar as vicissitudes
da vida. Não que eu seja tristonha e doída em todos os dias da vida. Até que
eles são poucos se comparados ao passar dos anos. Acredito que minha falta de
alegria se instala em um período crítico do mês, e daí já não há muito que
fazer. Talvez dormir, escrever, contar as estrelas. Melhor dormir, descansar a
alma da carga que é viver em si, constatando que o mundo nada vai fazer para te
compensar os atrasos.
Embora eu fale
do passado como quem ainda queima em cólera, ele já não é lá tão corriqueiro. Quer
dizer, aprendi a deixa-lo em seu lugar de merecimento. Se vez ou outra ele me
faz uma visita inconveniente, responsabilizo meu inconsciente traíra, cafona e
clichê, e que é incapaz de entender a mensagem que todos os dias me comprometo
a repetir como vigília.
Não tenho medo
do passado, veja bem, não sou do tipo que desaba em choro ou agoniza ao cruzar
com ele em uma esquina. Mas, se puder evita-lo, assim vou fazer, afinal de
contas, não sou obrigada a ressentir.
Também não me
vejo feliz, mas isso já é outra história. A felicidade está naquilo que já
vivemos e em tudo aquilo que desejamos ainda viver. O que passa nesse meio tempo
é um misto de angústia, expectativa e cansaço. É isso. Hoje sou mais angústia,
talvez por conta dos últimos acontecimentos. Isso de não ter controle algum
sobre o acaso ainda vai me levar à loucura.
Mas não
ressinto, ou pelo menos tento me libertar de todas as amarras que me prendem.
Eu, que sempre fui do apego, aprendi que, quanto menos carregamos, mais podemos
acolher no caminho. Tento não levar nada do que não vou precisar. Claro, ainda
me vejo laçada aos contratempos que gostaria de mudar, mas sei que isso é
tolice. Se aconteceu da forma que aconteceu era porque assim tinha que ser. Paciência.
Resiliência também pra, quem sabe, encarar o mundo com um pouco mais de
otimismo ou, pelo menos, mais compromisso com a própria felicidade.
Não sinto
saudade, não guardo remorso. Talvez vergonha ou, sei lá, algo entre não querer
ter vivido e o esquecimento. Como eu cobiço uma dose de amnésia nessas horas.
Mas tenho memória de elefante, traiçoeira e vingativa. E o que mais me espanta
é que só me vingo de mim mesma cada vez que penso de novo em como tudo
poderia ter sido diferente.
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