Perdi o vínculo. Depois de a chuva batizar o dia com o que de mais puro poderia cair do céu, percebi que só havia um jeito de terminar aquele dia. Com chuva. Gotas. Pra lavar a alma, mas também pra levar embora a saudade que já não cabe nos dias e não comporta mais vida.
Vivemos em busca da felicidade. Se um dia já fomos é outra história, falo aqui do que ainda queremos. Ninguém quer sofrer o tempo inteiro, mas nem por isso sofremos menos ao longo da vida. Sofri, sofro, sofrerei e quem sabe o sofrimento nunca parta de uma vez por todas, sempre encontre espaço nas brechas da vida, no caos de nós mesmos. Nem por isso deixarei de viver.
Nem por isso deixarei de morrer todas as vezes que julgar necessário. Aprendi a respeitar minha dor. Descobri que tenho limites e que só conseguirei transpassa-los no tempo certo. Tudo tem seu tempo. Sim, ainda que não consigamos acreditar de imediato, tudo tem seu tempo e há um tempo para tudo.
É difícil reconhecer que, muitas vezes, o que nos faltou foi o tempo certo. Talvez as pessoas, os dias, os sonhos, as conquistas, tudo esteja nos conforme. Mas nada disso fará sentido se você não estiver a tempo, no tempo certo.
E talvez por isso seja tão difícil reconhecermos o bem que alguém nos fez no passado, mas que agora já não ecoa. Ou doa reconhecer uma época feliz quando ela já se fez tão passado. Ou quando a vida se torna amarga, e trava a garganta de tal forma que nada parece adoçar os dias. É tudo uma questão de tempo. Tempo certo.
Um tempo se passou. Constatei isso naquele fim de tarde chorosa. Vi meu passado recostado no portão de saída. Me doeu, de súbito. Mas percebi a tempo que já era tarde demais e que aquele tempo já havia passado. Morreu. E então, como quem já tinha consciência do script, desviei o caminho e usei o portão lateral.
Não podemos mudar o que já vivemos, mas podemos sim determinar o que vai continuar dali pra frente. Há sempre um portão lateral. Mesmo nos cantos mais escuros da alma. Nem sempre há luz perto deles, mas nem por isso eles passam a ser menos seguros.
Não podemos mudar o que já vivemos, mas podemos sim determinar o que vai continuar dali pra frente. Há sempre um portão lateral. Mesmo nos cantos mais escuros da alma. Nem sempre há luz perto deles, mas nem por isso eles passam a ser menos seguros.

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