Eu não sei
dizer o que sou, mas sou feita de tudo aquilo que me apetece. Acordei hoje com
a voz de Elis no rádio, ressoando uma das mais belas melodias que já ouvi na
vida. Sou um pouco disso, quer dizer, caibo naquela canção, assim como muita
gente.
Às vezes, me
vejo assim, num poema, num livro, na música do rádio, não tenho limites, mas
ainda faço questão de delimitar meus espaços. Ultimamente tenho curtido cada
vez mais a ideia de ser só. Tropecei demais nas palavras que dizia sem muito
filtro, medida e razão. E me arrependi uma vida por isso ou aquilo.
Abandonei
pessoas, sonhos também. Abri mão de muito do que eu era, aceitei de bom grado o
que a vida tratou de deixar ser. Não costumo sentir falta, mas, às vezes, bate
uma saudade de ser quem eu era no passado. Preciso fazer as pazes comigo mesma,
ainda vivo em constante conflito com meu pretérito imperfeito.
Não que eu
tenha melhorado, não sei dizer, não mesmo. Também não sei dizer se prefiro o
atual estado, mas é o que temos para hoje. O que se pode fazer além de suportar
as consequências uma vez que a escolha já foi feita?
Tenho andado
meio perdida, sentido mais medo que alegria em descobrir os novos horizontes
que a vida pode nos oferecer. Sinto uma necessidade enorme de me sentir segura,
mas nem sempre meu travesseiro parece o melhor lugar.
Tenho rezado
mais, conversado com Deus, ou falado comigo mesma, não sei dizer. Acredito na
bondade maior e santidade de Dele e, justamente por isso, acho pouco provável
ser compreendida. Pecados à parte, tenho tentado fazer a minha parte em troca
de um descanso tranquilo.
Ando sumida,
escondida sim. Se alguém perguntar, eu digo que morri. Não gosto de ser
incomodada. Tenho planejado muito, realizado quase nada, me empenhado um pouco
mais para melhorar. Tenho medo do tempo na mesma proporção em que desejo que
ele voe o mais depressa possível.
Sou ansiosa
por natureza. E acredito que o maior dos meus problemas tem sido esse. Durmo,
mas não descanso. Como, mas não sacio. Choro, mas não desaguo. Rio, mas não me
alegro. Escrevo, mas não versifico. Porque o depois me esfria a alma, gela o
peito e silencia minha frustração. O abutre que em mim habita me devora de novo
todo dia de manhã. E como sentença de morte, me condena a viver outra noite só
pra me abocanhar o amanhã.

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