Me apego às
palavras, Zé. Às vezes isso me parece louco. Não sei, mas tenho a capacidade de
guardar frases completas, diálogos inteiros, que, vez ou outra, ecoam na minha
cabeça, como um filme rebobinado, sabe?! Tão antigo isso, eu sei. Bobo também. Mas
não consigo evitar e, por isso mesmo, julgo dizer que meu maior inimigo sou eu
mesma e minha mente traidora, que sempre traz à tona o que, a muito custo, faço
questão de deixar quieto pra, quem sabe um dia, esquecer de uma vez.
Detesto
guardar certas lembranças. Andei pensando e, bem, acho que a gente só deveria
lembrar ou sentir saudade daquilo que realmente nos fez bem. Sem adendos, sem
rodeios, sem “mas”, “porém”, “contudo”, “no entanto”. É furtivamente repugnante
guardar lembranças boas de pessoas e fatos que nos fizeram tanto mal. São antonímias.
Não cabem na mesma construção, será que você me entende?
Tudo bem, não
digo para guardarmos receios. Não vejo só o lado ruim da coisa, acredite em
mim. Mudei muito. Nem de longe pareço aquela que um dia julguei ser. Tenho um
lema sarcástico e contradito, mas que me cabe perfeitamente. Perdoe e esqueça.
Perdoe o que ou quem tiver de perdoar. E esqueça. Da existência, da presença,
do que foi, do que é e do que ainda pode ser ou não. Simplifique e determine
que não mais será. Ponto final.
Mas eu falava
das palavras. Das minhas, das suas, das nossas, em fim. Elas ainda me doem.
Domingos costumam ser tristes. Doídos. Não os classifico como dia, mas
sentimentos. Hoje foi assim. Embora corrido e atarefado, não consegui dar conta
nem de metade do planejado e, pra piorar, pensei demais.
Queira Deus
tratar de findá-lo com uma chuva abençoada que desde cedo ameaça cair. Vejo na
chuva um antídoto pra todo mal. Seja dor de dente, amor não correspondido,
saldo negativo ou disco de hérnia. Quando chove, pelo menos por uns poucos
instantes, nada disso parece ter importância. O céu chora e a alma aproveita
pra lavar a casa. Quem sabe, por sorte ou capricho, ela não leva meia dúzia dessas
palavras que me perseguem? Preciso de ordem na casa, Zé. Preciso de espaço.
Cansei de velhas palavras, promessas ultrapassadas e sentimentos vagos. Às vezes
me vejo presa num mausoléu de mim. E, se perguntarem, pode dizer, Zé. Diga a
eles que morri.

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