Foi como estar num filme, Zé. Vendo a película da minha vida. Eu estava sentada naquele banco bem em frente à escada rolante. Nada de especial. Aproveitava os dez minutos que me restavam do intervalo do almoço, quando ele apareceu, como sempre, com aquela pressa de viver que lhe é característica. Sabe a música de fundo, pois é, Fast Car surgiu quase inaudível e inundou minha alma. Estranho como as músicas têm o poder de nos tomar de nós mesmos. Levantei a cabeça, de súbito, e fui fisgada pelo olhar mais travesso que já me prendeu. Quem sabe até pertenceu. Me olhou por cerca de 2 segundos. Depois checou o relógio. Jogou o cabelo para trás, daquela forma graciosa que só ele sabe fazer. Talvez o tempo tenha finalmente dado sinais, pois sua cabeça carregava já um brilho grisalho que o deixou ainda mais encantador. Eu sei, Zé, comentário besta, desnecessário também, mas sou eu a narradora da história.
Como disse, checou o relógio. Parecia não acreditar no que o ponteiro marcava. Ou quem sabe, com seu olhar ameaçador, queria muda-lo de posição. Parei um minuto. Pendi a cabeça para o lado direito, como sempre faço ao ficar distraída. Pensei em levantar, ir até lá. Cumprimentá-lo.
Não tive tempo, já que entre o intervalo do pensamento e da ação, fui abalroada com a cena mais óbvia e pungente que podia ocorrer. O vi acenar e, segundos depois, estender os braços para alguém cujo rosto não consigo lembrar, ou não quero. Ou não sei.
Mas é claro que ele está com ela! Sei, sei, você vai me dizer isso. Mas era a minha história, entendeu? Ao menos uma vez na vida deveria ser como eu queria! Não é pelo fato dos vinte anos que se passaram num piscar de olhos. Nem porque continuo na mesma. Desisti da carreira medíocre e me dediquei (afundei) à ideia maluca de escrever e com isso só consegui um emprego que me garante o que comer e vestir todos os meses.
Era a minha história. Eu já tinha os diálogos ensaiados na mente. Tinha script. Figuração. Eu disse: luz, câmera, ação! Ele não seguiu o roteiro. Desviou o enredo. Não se faz isso sem consultar o autor. Nenhum protagonista altera o texto por conta própria.
Então, a música acabou. Meu intervalo também. Quando decidi por fim dar uma última olhada, não os encontrei mais. Melhor assim. Fui embora com o café que nunca tomo e minha bolsa atolada de coisas que nunca uso, mas sempre carrego. Vai que preciso.
Que é que a gente faz com nossa história, Zé, quando os personagens ganham vida própria? Eu só não queria ficar sozinha. E olha só onde estou. É só você e eu. Sempre assim. Do início ao fim. Vamos pular para a parte em que começo a morrer. Cansei dos sonhos. Dos diálogos nunca conversados. Cansei de ver o tempo passar. E ir embora sem mim.

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