Ah Zé, se a saudade coubesse na distância dos sentidos. Talvez, de fato, nunca teríamos nos afastados. Mas a saudade vai além, do choro, do riso, da lembrança. Encrosta nas paredes da alma e faz morada no coração vazio. Ah Zé, se a distância não fosse medível, palpável, mensurável. Se completássemos a falta com a presença do que já foi, mas nunca se volta a ser o que se foi um dia. O mesmo rio não corre outra vez e falece em mim na estiagem de sentimento bom, desaparece e infiltra a alma nua de bom ser. O sol que renasce todo dia resseca meus passos, e leva com a poeira os traços e destroços do caminho velado desde o tempo em que se aprendeu que nem só de alegria vive o homem. E tudo que aconteceu por acontecer, tratou por deixar meu mundo em p&b matizado, porque a saudade aflige e desaquarela aquilo que vejo, e nenhuma alegria desfaz os nós da tristeza locada em meu peito. Tá certo, eu dispenso o consolo e o comentário anônimo, por não ser mais necessário esconder a face e o jogo perdido, que sempre me foi roubado. Mas as cordas que me guarneceram naquela tarde torcida de verão sofrido ainda embalam meu eu lírico, por descuido ou displicência. E do outro lado da corda ainda sou desconhecida em muitas faces. Fui esquecida pelo derradeiro destino de almejar ser lembrada demais, em cada canto ou face que se revela enquanto atravessava a rua. E toda vez que retorno ao fim desse conto, parto em busca de um novo começo. E recomeço toda vez que retorno ao ponto em que não mais entendi como se faz pra seguir adiante, sem alma, sem sorte, amor ou qualquer trapo de certeza capaz de calar nossa inconstância e fugacidade. Àqueles que foram um dia, e agora já nem são mais, guardo segredos que sobram, e que no fim tanto faz. Ah Zé, a vida é, em todo seu ser, uma solidão só. Não se completa, nem se esquece, às vezes nos afoga e quase sempre nos falta, é espetáculo longo pra plateia infiel. O ato final sempre fica à mercê do poeta e da interpretação do papel.

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