segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre a canção que não fez sentido quando deveria.


   Então amigo, me peguei ouvindo aquela canção que me mandaste numa madrugada qualquer de insônia, daquelas que a gente compartilhava, você, por não ter nada melhor a fazer, e eu, por nutrir a necessidade premente de receber algum sinal. É assim que me recordo daqueles dias, ou noites, melhor dizendo. O mundo era compacto e cabia na palma da mão ou na discussão na calçada do outro lado. O caminho de volta era mais comprido, não que isso incomodasse, gostava de me demorar nos passos, como se aqueles fossem os momentos mais aprazíveis da vida. Mas eu falava da música, da emoção e vivacidade com que me apresentaste aqueles versos e rimas. Confesso, sem medo de julgamentos, que ouvi a canção, mas não o que era cantado. E lembro com certo humor o seu desapontamento em não ter agradado. Ah, amigo, como a vida é traiçoeira. Como nossas crenças e costumes podem nos aproximar e então nos levar pra longe. Sem mais nem menos, ou muito mais. Somos tão desconhecidos em nossas coincidências e consciências. Eu te conhecia tão bem, ou acreditava conhecer. E me irritava toda vez que você me dizia o mesmo, mas o fato é que nunca conhecemos o que era devido no outro. Eu, por querer certezas demais, por ter contaminado sentimentos imaturos com as companhias e amores errados. Você, por se julgar amigo do tempo, conhecedor do mundo, soberba que me tirava do sério todos os dias. Nossos dias são tão distantes agora. E naquele último abraço de conveniência e oportunidade percebi o quanto te perdi sem nem mesmo ter te encontrado. Ah, quanta coisa ficou por dizer em nossas vidas pelo simples fato de você ser aéreo demais e não atentar pros detalhes. Eu pequei por excesso toda vez que enxerguei demais onde não havia sentido. E como eu sinto por isso, mas já nem sei se daí você sente mesmo, o mesmo. Pois é, a música. Confesso que pra mim continua a não fazer sentido, e essa disparidade só você pode resolver. Ouvi outras canções da mesma autoria. Me embriaguei em cada verso sorrido e acorde tocado. Não vejo aonde ela nos cabe, se é que alguma vez coube. Talvez não, talvez nunca, ou coube quando já era um pouco tarde. Uma coisa o autor não erra, a teimosia dele me afeta também. Nem sei por que te escrevo isso depois de uma caminhada que me levou pra um passado não muito amigo, aprisionado em sepultura e céu cinza. Te desejo a felicidade que almejo a um estranho, não falo de amor ou destino nesse meio tempo. Não prometo restituição de vínculos e risos. É só uma lembrança fatídica da vida que me soprou aos ouvidos com a canção. Você sabe que eu prefiro as distâncias, a segurança de estar só, ou sem aquilo que não faz mais bem. Tratei por bem de achar refúgio longe daquele céu que nos cobria em todo caminho de volta. Sim, há outros céus pra admirar. Daqui vejo bem mais estrelas e certezas. Siga seu caminho, amigo de outrem, você sempre teve mais facilidade com fins e começos. Eu ainda procuro finais perfeitos pras minhas frustrações, mas não se abale. Algumas coisas mudaram. Outras, nem os dias, nem a vida em si, tratarão de mudar. Melhor assim. Adeus, já é tarde.

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