Entre os dias que passam sem nenhum comprometimento com o caos daqui, esqueço as palavras que abrem velhas feridas e queimam a carne já cicatrizada. Não fosse a vida em si, diria ser impossível sofrer se já não se morre de fome, nem sede ou frio. Mas cá tenho em mim um hematoma na alma, sutura recente de um passado que estilhaça meu peito. Queira ou não, vivo a dúvida suicida de não saber pra onde ir. Enquanto isso, me despeço e despedaço os cacos e acasos passados, vazios, vividos, atados. Poetizo meu dia que mal chega e se apressa em dar adeus. Faltam-me horas, sobram-me medos. Sofro a pressão do mundo e sinto a gravidade me tirar do chão e do sério. Sem querer reinar na razão, tratei de ser contido, às vezes se ganha mais correndo estrito, fazendo do silêncio seu plano bom. Não ver, nem tocar, que o mundo mantenha a saudade distante, a vontade constante de desapegar do que não mais acontece. Deus permita outra música, outra hora perdida e encanto achado naquele último CD da prateleira que agora embala o sono e acolhe a noite. Outra voz dessas que envolve a alma e seduz os sentidos. Dá-me a certeza de mais um livro e o tempo exato de mais um grande final. Implica a coragem que só os grandes têm, enaltece meu quase pra que ele veja além. E vida, aprende de uma vez, ao tolo poeta não se pega de surpresa, aquieta essa moléstia, atravessa essa promessa, pra tudo o que um dia vai, outro riso e outra graça uma hora vem.

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