Essa é uma história sobre tudo aquilo que não acredito mais, Zé. Como se não houvesse céu azul nem mar de rosas, deitei na cama vazia, repleta de sonhos de padaria e frustrações de poeta. De tanto poetizar a vida, tratei de atrasar o decorrer dos dias e dos fatos. Cá estou com vinte e poucos anos sem viver de bom grado. Como quem deixa à flor a decisão do ciclo, o bem me quer mal me querendo tratou de me afetar e se instalar. E mesmo que eu me impeça de amar, alegando a última página transcrita a tanto custo, amo ainda mais porque revivo o gosto. Degusto a mesma taça de vinho pelo menos umas cem vezes antes de esvaziá-la e enchê-la até a borda. Morro mil vezes na mesma ressaca que curo com música e lembrança. Me afogo em saudade, me encontro na esquina entre a canção e o tempo. Ah, Zé, não fossem os dias e a vida em si, viveria tudo de novo sem medir espaço, sem culpar o atraso, como última oração pra salvar o mal feito. Sinto falta de rotina e me sobra tempo dentro da pressa. Só me resta o ‘eagora?daquiprafrente...seguindoadiante...’ e não me resta nada palpável, Zé, tratável e justo dentro das possibilidades mil de ser eu mesma, sem ser tanto ou demais. Talvez eu vá e não mais volte. Talvez eu canse do que me era bom e ainda é, não sei dizer, falo do que sinto cada vez que volto. Tem coisa na vida que passa e a gente nem percebe. Outras vezes, não passa nunca, e nunca mais é a mesma coisa. Sei que te confundo, Zé, sei que me maltrato em confusão e falta de vontade. Me falta gosto pra ver paixão em tudo, falta coragem pra saber onde pisar, falta palavra pra concluir a frase. Essa dieta lírica tem me inchado os pulsos, acumulando amargura onde não cabe mais, ao mesmo tempo em que tenho fome de vida, me empanturro de planos excessivos e pouco concretos. Metamorfoseei demais a fase, Zé, me perdoe a falta de medida, a dose exata pedida, mas estou aos frangalhos de quem vira a página e não encontra nada plausível para escrever. E já não me importam os esquecimentos e as saudades. Pra certas coisas eu só queria uma borracha. Apagar do texto tudo aquilo que desarranjou o enredo. Dei-me mais duas horas de sono, um canto frio e uma verdade concreta pra seguir em frente. Fecha o verão, encerra o ano, traz algo menos quente e mais cômodo pros meus dedos inquietos e cabeça em profusão.

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