Ah Zé, eu não pediria mais do que um pouco de pressa. Não que a vida em si esteja estagnada. Os anos passaram com fúria, pra minha sorte, tive de me despedir das cores, flores e jardins mais cedo do que imaginava. Pensei, finalmente, nunca mais pisar naquele lugar. Melhor, não mais manchar o meu dia com felicitações e formalismos morais. Foi o adeus mais significativo e cobiçado, cá estou hoje empacotando a mudança. Eu sei, Zé, você, como tantos outros, já me disse que é loucura o que estou me propondo. Seria regressão, transgressão, ou qualquer outra grande e significativa destruição. Por medo de cometer os mesmos erros, persisto na minha estúpida ideia. Não tenho medo de me arrepender. Voltar ao início não me assusta mais como antigamente. Só não aceito manter meus dias em branda rotina e fadiga, por não achar justo abrir mão do conforto. Sinto-me notavelmente desconfortável nas outras vidas, e por não aceitar o fato de ser fardo pra outro alguém, junto meus pedaços e parto pro caminho mais óbvio e inadmissível que um dia julguei tomar. Não, Zé, não é a amargura de ser o que sou o que mais tem doído. É o deserto do que fui e deixei de ser que ainda afeta meu sono. Cansei do clichê que me tornei, do estereótipo pulsante que me grita aos olhos e escorre em tudo o que escrevo. Sabe, as pessoas ainda se veem em mim como em outrora, vívidas e inquietas em suas excentricidades e em minhas rimas. Mal sabem elas que não passam de uma visão raquítica nesse mausoléu de mim. Depois de fechar as portas, jurei nunca mais sofrer pelos motivos errados, nem doer com a afetação dos dias. E sempre que me obrigam a voltar no tempo, forço-me a dobrar a tristeza e esquecer, grão em grão. Sim, Zé, todas aquelas canções vão me recordar disso tudo, mas antes poetizar o que não faz mais sentido e pausar quando bem entender, que alongar conversas falhas e sentimentos sufocados no peito. Pelo direito à próxima faixa é que me despeço sem me importar com os três minutos de nossa música.

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