quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sobre o livro que volta e o ano que chega.


     Enquanto degusto as palavras dos meus autores de predileção, recebo de volta os escritos de Khaled Hosseini. Não me recordo ao certo, mas fazem dois meses ou mais que emprestei suas palavras a um amigo. Não vou mentir, nutro uma pecaminosa adoração por tudo o que é escrito, documentado, palpável e visível. Mas, da mesma forma, acredito que as palavras são passarinhos em seus ninhos, vez ou outra, precisam alçar voo. Por isso não me oponho quando de um pedido amigo. Longe se encontram mais três exemplares, pretendo reavê-los em breve. Não sei dizer se é a poesia que me rega enquanto leio as palavras do padre, mas acredito piamente que cada escrito que se vai e retorna, chega de uma nova forma. Não, não é o enredo em si ou a história que mudam. É o significado. A semântica da vida que não se faz mais a mesma. Achei engraçado a forma como este último retornou. Veio acompanhado de um “você está melhor?”. Confesso, levei alguns segundos para processar sobre o que tratava a pergunta. Respondi, por fim e impulso, “sim, melhorando”, e devolvi a moeda. Só depois recordei o causídico em que se encontravam os dias em que o livro fora emprestado. E assim vejo o quanto a vida muda, ainda que para nós pareça a mesma. Cá estou eu, um ano mais velha, pois o calendário não me deixa mentir, com uma graduação findada, pendente apenas de burocracias e comemorações. Rituais. A vida se baseia na ritualística, viver é uma celebração planejada, contada e irrepetível, mas que acontece todo dia e sempre. Recebi outro dia uma dezena de exemplares para rechear minha coleção. Ontem os separei por cores. Enjoei da última arrumação feita. De fato, organizar as prateleiras, gavetas e escrivaninha me ajuda a reorganizar a vida. A ver o que foi esquecido, a esquecer o que é visto a todo momento. Reli dedicatórias que talvez hoje me afastem das pessoas que as escreveram. Seria capricho do destino?! Não sei, a vida em si tem mudado muito, mesmo sem se perceber, e o que mais me tem doído desde o anoitecer de ontem é o fato de reclamar demais. Por que tanto pesar em carregar meu fardo?! Procuro sempre uma desculpa plausível, um argumento filosófico ou um descobrimento científico para justificar o rumo das coisas. A reclamação de ontem e a constatação da lamúria me fez acordar para esse lado tão característico, comum e, ao mesmo tempo, imperceptível de mim mesma. Sofro mais porque vejo demais, porque insisto em martelar até não fazer mais sentido, até cansar a alma e os ouvidos alheios. Sofro porque acho difícil por fim ao mesmo tempo em que anseio loucamente por terminar as coisas. Morro em minhas esperas, enquanto desejo preguiçosamente alcançar tudo o que me vêm à mente. Encerro o ano sem nenhuma expectativa, mas cheia de estratégias e planos pros próximos trezentos e sessenta e cinco dias.

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