Escrevo enquanto o céu se pinta de um tom de cinza confortador, ameaçando desabar sobre a noite que se aproxima. Graças ao bom Pai a temperatura caiu a um nível consolável, tendo em vista as temperaturas acusadas pelos termômetros nos últimos dias. Vai chover, avisa meu inconsciente tão sensível à casuística que trata por findar o ano. Ouvindo o que me coube pra terminar as horas da sexta, me aninhei a essa voz que me toma pela mão e me aperta bem perto, de forma que meu espaço se mistura à melodia e o cheiro de terra molhada. Ele diz ao meu ouvido que é pé de serra, passo leve de guiar, prosa boa de curtir, e por um instante eu decido abrir mão do caos de que se tem feito os meus dias. Já que é pra sair da zona de conforto, me leve pra algum canto aonde a temperatura máxima chegue ao 15°, onde eu possa me alimentar de livros e uma boa taça de vinho. Que a claridade esteja sempre à meia luz. Julgo dizer que meu sossego anda mitigado, abalroado pelos compromissos rítmicos da vida acadêmica decadente. Essa história de gente grande nunca haveria de dar certo mesmo, não sei por que ainda insisto. Pra refresco da vida e sem querer abusar do doce das palavras, como pimenta malagueta todo dia. Preciso é saber lidar com o tempo, o ano demora o dia inteiro pra terminar. E tento não me abater diante do presente de grego que o acaso trouxe, segundo consta, a vida não se resume ao dia de hoje, ergo a cabeça e me forço a rir das sílabas dessa música-poema que me sopra aos ouvidos. Sem me utilizar das palavras alheias, prefiro fazer do silêncio morada, indo embora antes mesmo de chegar. Pelo direito de ir e vir, faço bom uso do meu de direito de ficar.

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