quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Calendário.


   Quisera eu, Zé, traçar minha vida como quem organiza uma agenda. Você bem sabe que, no quesito arrumar as coisas, ninguém me bate. Talvez porque não goste de deixar a desejar aquilo que depende única e exclusivamente de mim. Mas a vida não me cabe nas mãos, não é Zé?! Eu sei que você vai dizer isso. Todas as vezes em que tentei abraçar o mundo e aprisionar a vida que me escapava entre os dedos, você me viu fracassar. Fracassei mais porque insisti no que não fazia sentido. O estresse dos últimos dias foi de me arrancar os cabelos. E não, Zé, não há conformismo no mundo que me console e faça crer que as coisas foram assim porque tinham que ser. Mas então, o que fazer?! Pra onde ir?! Fugir e se abrigar na sombra de que ou de quem?! Zé, há tempos tenho entendido que meus dias e suas idas e vindas dizem respeito a mim apenas. É sobre dar satisfações o que estou me referindo. Estou lhe dizendo que, o fato de ter vivido os últimos oito mil e trinta dias só me diz respeito, trata-se unicamente do meu cuidado e atenção. A vida é tão pouca, Zé, eu sei, tão efêmera e mesquinha diante da grandiosidade que podemos vislumbrar. E por mais difícil que seja reconhecer, percebi que há um tempo para todas as coisas, independentemente da nossa vontade de acontecer. Que minhas escolhas, meus caminhos, podem se resumir a um instante, uma música que povoa a alma, um perfume que aprisiona histórias, um abraço que revive em mim aquilo que já não é mais. Difícil é constatar a pressa dos anos enquanto construo copiosamente aquela que pretendo ser lá na frente. Oswaldo me diz agora pra viver da forma mais urgente, pois a única coisa que me resta é a vida inteira pela frente. De todo amor que há no mundo, aceito até o nunca mais. Temo o desajuste que um talvez pode trazer. Já tive isso. E entre negar desamor e desculpar-se por amor em excesso, prefiro a sorte de não ter um bom motivo para amar e ainda assim amar mais do que realmente aprendi. Ah Zé, caberiam em mim todas as dores do mundo. E as alegrias também.

Nenhum comentário:

Postar um comentário