Quisera eu, Zé, traçar minha vida como quem organiza uma agenda. Você bem sabe que, no quesito arrumar as coisas, ninguém me bate. Talvez porque não goste de deixar a desejar aquilo que depende única e exclusivamente de mim. Mas a vida não me cabe nas mãos, não é Zé?! Eu sei que você vai dizer isso. Todas as vezes em que tentei abraçar o mundo e aprisionar a vida que me escapava entre os dedos, você me viu fracassar. Fracassei mais porque insisti no que não fazia sentido. O estresse dos últimos dias foi de me arrancar os cabelos. E não, Zé, não há conformismo no mundo que me console e faça crer que as coisas foram assim porque tinham que ser. Mas então, o que fazer?! Pra onde ir?! Fugir e se abrigar na sombra de que ou de quem?! Zé, há tempos tenho entendido que meus dias e suas idas e vindas dizem respeito a mim apenas. É sobre dar satisfações o que estou me referindo. Estou lhe dizendo que, o fato de ter vivido os últimos oito mil e trinta dias só me diz respeito, trata-se unicamente do meu cuidado e atenção. A vida é tão pouca, Zé, eu sei, tão efêmera e mesquinha diante da grandiosidade que podemos vislumbrar. E por mais difícil que seja reconhecer, percebi que há um tempo para todas as coisas, independentemente da nossa vontade de acontecer. Que minhas escolhas, meus caminhos, podem se resumir a um instante, uma música que povoa a alma, um perfume que aprisiona histórias, um abraço que revive em mim aquilo que já não é mais. Difícil é constatar a pressa dos anos enquanto construo copiosamente aquela que pretendo ser lá na frente. Oswaldo me diz agora pra viver da forma mais urgente, pois a única coisa que me resta é a vida inteira pela frente. De todo amor que há no mundo, aceito até o nunca mais. Temo o desajuste que um talvez pode trazer. Já tive isso. E entre negar desamor e desculpar-se por amor em excesso, prefiro a sorte de não ter um bom motivo para amar e ainda assim amar mais do que realmente aprendi. Ah Zé, caberiam em mim todas as dores do mundo. E as alegrias também.

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