Novembro chegou, Zé, e minhas paixões se acentuaram. Você sabe que gosto tanto desse mês como de tapioca com coco ou chocolate branco. Já separei a play list pra me embalar durante o trabalho e o descanso. Mas esse ano vai ser diferente, suponho que o tempo seja curto pra tanto afazer. Dezembro vai chegar sem quê nem pra quê. O domingo me regou de nostalgia, Zé, lembrei as tardes perdidas (ou seriam achadas?), enquanto despachávamos folhas caídas pelo córrego mínguo que a chuva dos verões não tão caóticos tratava de trazer e refrescar nossos dias. Hoje respiro o mesmo ar que gostaria de engarrafar, só pra postergar a sensação, mas ainda me sinto engaiolada. O cheiro da chuva sempre traz uma lembrança boa. E se não traz, a gente inventa uma só pra participar da conversa. Queria alguém pra cantar e tocar aquela canção que a gente ouvia. Não, Zé, não adianta cantarolar como prece ou reza. Quero alguém que sinta como a gente sentia toda vez que o primeiro acorde rompia a calmaria de um domingo. Eram dias em que a vida parecia uma eternidade. Mas podíamos medi-la com palmas e pés. Nosso maior desafio era decorar a letra. Nossa maior preocupação, arrumar a mochila pra volta às aulas. Ríamos frouxos, cheios de segredos que julgávamos grandiosos. Ah, Zé, quão grandiosos podíamos ser em nossas pequenices! Lembro-me de te aprisionar no peito, com medo de parecer boba, com medo de assustar quem não sabia o que se passava entre nós. Só tarde da vida vim perceber o mal que fiz a mim mesma e a você, sempre tão arredio e desconfiando quando tento dizer as coisas. Você sim, sempre me impondo limites, falando difícil, metamorfoseando os sentimentos e maquiando as dores por acreditar que as pessoas não deveriam saber. Quem mais sabe de nós é a gente, meu rei, não sejamos hipócritas. Pare de estancar agonias de um peito que nunca sara, se dói tanto, deixa doer até dar câimbra no coração. Corte o mal pela raiz e seja feliz dentro da sua natureza triste. A gente ainda tem muito que viver, Zé, não interrompa o roteiro. Preciso de você pra seguir em frente e aguentar novembro. Pois é, seu eu carece de mim pelos mesmos motivos, então, aguente firme.

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