Ninguém aceita meu ponto de vista, Zé, nem reconhecem quando estou certa. Batem o pé e dizem que sou rebelde sem causa, do contra, que só vejo o lado ruim das coisas. Ontem cumprimentei minha vizinha com talvez o nonagésimo terceiro “boa noite” e, como das outras vezes, voltei com a companhia do meu eco nas costas. Não me interessa o motivo dela não responder, se o dia não estava mesmo bom ou se a noite só tinha a piorar. O que me incomoda é a ausência de reciprocidade, Zé. Já parou pra pensar: eu desejo boa noite, bom dia, boa tarde, Deus acompanhe e isso pouco afeta as pessoas. Me diga, como chegar a alguém se não por palavras bonitas?! Não sei, Zé, não sei o que dizer ou como agir, me angustia morar num lugar onde aqueles com quem cruzo todos os dias não são capazes de enxergar os outros, de dar importância ao cotidiano. A minha vontade é de na próxima que vez que encontra-la desejar em alto e bom tom um “Que o diabo a carregue!”. Será que cola, Zé?! Será que causa espanto?! Ou ela vai simplesmente ignorar como das outras noventa e três vezes.
Sim, eu faço os cálculos dos silêncios, eu matematizo a vida ou as circunstâncias que ela me apresenta. Não preciso de terapia, só necessito de mais horas de sono tranquilo e isso inclui reduzir o número de pessoas rondando a área comum do prédio em que moro, principalmente nos horários em que a melatonina precisa trabalhar. Eu aprendi da forma mais doída e talvez mais perversa que, quando as coisas não vão bem e não dependem única e exclusivamente de nossas atitudes, nós devemos aprender a nos adaptar ao incômodo. São pelo menos quatro anos assim. Claro que há dias pesados ou perdidos entre sonos descompensados e cansaço em excesso. Mas a gente tem que tirar proveito daquele bom dia logo cedo. Não somos amigas, nem tampouco sei o seu nome de batismo. Só desejo boa tarde por costume, cortesia e educação, porque ela também é rotina. Quero outro mundo, Zé. Ou pelo menos outra rua, vizinhança, cachorros e carteiros sorrindo pra mim na rua. E talvez meu problema não se resolva com uma mudança de endereço. Me espanta constatar que passaram os anos e ainda assim, na maior parte do tempo, o ar que você respira é o mesmo que incomoda tanto minha existência.
Sim, eu faço os cálculos dos silêncios, eu matematizo a vida ou as circunstâncias que ela me apresenta. Não preciso de terapia, só necessito de mais horas de sono tranquilo e isso inclui reduzir o número de pessoas rondando a área comum do prédio em que moro, principalmente nos horários em que a melatonina precisa trabalhar. Eu aprendi da forma mais doída e talvez mais perversa que, quando as coisas não vão bem e não dependem única e exclusivamente de nossas atitudes, nós devemos aprender a nos adaptar ao incômodo. São pelo menos quatro anos assim. Claro que há dias pesados ou perdidos entre sonos descompensados e cansaço em excesso. Mas a gente tem que tirar proveito daquele bom dia logo cedo. Não somos amigas, nem tampouco sei o seu nome de batismo. Só desejo boa tarde por costume, cortesia e educação, porque ela também é rotina. Quero outro mundo, Zé. Ou pelo menos outra rua, vizinhança, cachorros e carteiros sorrindo pra mim na rua. E talvez meu problema não se resolva com uma mudança de endereço. Me espanta constatar que passaram os anos e ainda assim, na maior parte do tempo, o ar que você respira é o mesmo que incomoda tanto minha existência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário