Ainda não sei lidar com as faltas da vida. Constato isso às 17:59 de uma segunda vazia e quente, enquanto ouço a melodia febril de Roberto. Tem se tornado um vício, de fato, mas não chega a ser algo que me espante. Talvez eu estivesse predestinada a ser assim, é quase como aquela memória da infância, ficam camadas e mais camadas do que se sentia, ouvia, vivia. Quantas coisas que eu condenava hoje abraço pra sobreviver?! Tenho um futuro brilhante pra conquistar nos próximos 200 dias, foi o que me disseram, ou vai ver é o que eu realmente acredito ainda. Mas não escondo minha vontade de sufocar esse medo ou apatia do que está por vir. Nunca fui de esperar pelos outros. Sempre tomava a frente, como quem já estava habituada ao papel de comandante. Hoje não consigo nem conduzir meus estudos. Meus livros ainda estão na prateleira, à espera de sossego para serem degustados. As horas me parecem poucas, os dias longos e densos. Chega a noite e me bate essa certeza inútil de que a vida corre e eu pouco faço para acompanhá-la. E me vem outro amanhã, outra promessa, outro sorriso forçado de boas vindas, bons desejos, boas vontades. Se ao menos as músicas me bastassem. Ontem a fala da personagem me chamou atenção durante o intervalo: “Talvez eu só queira ficar sentada aqui no seu sofá pra morrer”. Era isso ou algo parecido. Quantas vezes não é somente isso o que me vêm à cabeça?! Não, não se trata de um pensamento constantemente suicida. Às vezes a vida se mostra tão pouca que a morte se revela muito mais atrativa. Ok, talvez você não entenda, assim como eu também não adoto tamanho sentido para as minhas palavras vez ou outra. Só trago à tona aquilo que perdi, ou deixei pra trás, ou fui obrigada a largar. Não sei, não sei dizer se isso é uma patologia, ou um tom perverso de trazer de volta o que o tempo já tratou de amarelar e os outros, de esquecer. Mas ainda sofro dessas mortes súbitas. Quando uma lembrança vazia preenche e ganha um novo sentido, seco e amargurado, duro e amarrotado. O quanto aprendi com as coisas que guardei?! Nada de choro ou desespero, mantenho o mínimo de dignidade que se pode exigir de alguém humanamente mortal. E aceito aquele último suspiro de quem já não sou mais. Respeito o minuto de silêncio. Permito uma última canção em homenagem. E vendo assim, percebo que, o que mais tem doído nesses últimos dias não são as mortes em si, mas o compromisso de vestir o luto tantas e tantas vezes ao longo de uma vida.

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