Zé, coube a você o papel de ouvinte da noite. Não que as coisas tenham mudado com o passar do tempo. Há anos venho depositando meus picos de ternura e acidez em sua companhia. Hoje o dia me pesou dobrado. As horas correram numa maratona exaustiva, cá estou eu fatigada e deprimida após cruzar a linha de chegada. Sem motivo aparente, vivo minha vida de espectadora da própria sorte. Aceito de bom grado as marés de tédio e a solidão que me conforta. Pouco importa ter o corpo jovem preso a uma mente cansada, de ideais vencidos e prazeres passados. Prefiro a companhia dos livros nas prateleiras e da música tema do dia. Ainda hoje me pergunto o motivo que me levou a uma escolha tão prematura, cuja pena me depena e tortura até hoje. Só preciso de um sinal de que as coisas boas vão chegar, qualquer mísero aceno vindo do final da avenida, me mostra onde encontrar essa tal felicidade de viver cada dia como se fosse o último, Zé! Insistem em me fazer sorrir, em dizer que a minha vida não tem nada assim de tão amargurado, que meu destino é promissor e aguardado. Quem espera mais dele além de mim, Zé?! Quem me quer melhor mais do que eu posso querer?! Minha vontade é de ir embora o mais rápido possível, embora eu não faça a mínima de um destino certo, um lugar seguro, sombra de consolo e paz. Eu penso em todas as opções e ouso arriscar, mas o que me resta ao fim do dia é algo que, de fato, não é novidade alguma pra você. Eu só queria poder sentar naquela calçada e chorar por tudo aquilo que foi e não é mais, por tudo o que poderia ter sido, pelo que nunca mais será e por todas as minhas suposições absurdas e categóricas que você adora enumerar pra me esfregar na cara mais tarde. Eu só queria desaparecer por um ano, Zé. Mas aí vem você me dizer que eu tenho de parar com essa mania ridícula de querer sumir do mapa, e eu me sinto tão estúpida nessas horas. Eu só te peço pra me deixar falar, Zé, ainda que você não ouça. Me deixa falar, é só o que eu tenho pra hoje.

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