E da varanda do segundo andar vejo a vida como quem não tem mais nada com o que se preocupar. Às vezes eu sinto as coisas assim, um instante fugaz, que se acomoda e se vai na mesma fração de tempo. É como a crise de abstinência que me acomete o término de um livro. Ou os acordes daquela música que eu ouvia na infância: a sensação de plenitude e leviandade mitigada. Um desejo quase sobre-humano de voltar no tempo e recuperar os 3 minutos de melodia, a comichão no peito antes do grand finale, o sono que vinha leve, o sol que invadia a janela aberta. A maioria das coisas boas de hoje parecem machucar. O sol aquece, mas queima. O sono demora e, quando chega, rouba um tempo precioso. Os finais felizes não são tão felizes, e a maioria dos grandes enredos desaponta no ponto final. A saudade ocupa a cabeça com as coisas erradas, os pensamentos são desviados praquilo de que tanto fugimos. A dor não se acomoda só num canto, ela insiste em doer dobrado, em causar mais sofrimento do que realmente é exigido. E a gente sofre e nutre um desejo estranho de conhecer coisas novas, e se apaixonar, e tentar ser feliz mesmo sabendo que unir o útil ao agradável é quase impossível. E se conforma também, decide empurrar goela abaixo todos os estereótipos e padrões sociais, sorri torto, amarelo, elogia a canção do rádio e guarda as lágrimas pro travesseiro amarrotado. E demora a encontrar a saída, aceita a carona de quem já não é tão amigo em nome dos velhos tempos. Planeja a festa do fim de semana, mas troca tudo pelo novo romance de J. K. Rowling. Lista os afazeres da semana na agenda e não cumpre 1/3. A gente tenta mudar as coisas, fazer direito, ser proativo. Mas sente cá dentro a postergação instalada como parasita. Quem sabe amanhã, deixa pra depois, um dia a mais ou a menos não vai fazer diferença. E parece que mudar é um fardo muito pesado pra suportar hoje em dia.

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