domingo, 9 de junho de 2013

Ao léu.

  
    Um minuto de silêncio não. Me dê um dia, uma semana, um mês. O cansaço de uma vida não se cura com uma boa noite de sono. E o sossego nunca chega com o vizinho e suas conversas ao telefone, nem com a luz da lavanderia acesa. Não adianta desviar o foco, abstrair, não há concentração no mundo que suporte a bagunça ao redor. Não há paz de espírito que se acomode aos dias de hoje, ao uso das drogas do outro lado da parede e aos abusos da infância perdida, ou melhor, roubada. Não há coleta seletiva que descarte corretamente os pensamentos retrógrados, que elimine os conservadores e acalme os revolucionários. Não há mais religião, ou crença em um ser supremo. Tudo corrompido, manchado, cuspido nas paredes, jogado ao vento, ao léu, como se as ideias originárias pouco importassem agora. Tudo é mal interpretado, mal visto, mal falado, nunca agrada, nunca é suficiente. Ninguém amanhece com um elogio pra cultivar um sorriso. Ninguém deseja bom dia. A internet aproxima distâncias geográficas e comprime laços afetivos. Todo mundo quer o bem, mas não sabe como fazê-lo. Todos nós queremos ser entendidos dentro de nossos egoísmos. É mais como o ‘diabo que o carregue’, no fim das contas, melhor pra mim. O noticiário fala sozinho, enquanto as pessoas na sala se preocupam com seus vazios. Nada mais preenche os dias, estamos sempre atarefados, mas vazios de alma, paixão, fé. Falta o que eu chamo de ‘alvoroço’, amor-motor pra viver. Dinheiro enche o bolso, mas não alimenta a alma de ninguém. Enquanto isso as horas correm, atropelando a velocidade da luz. E onde está a vida que eu queria ter? É tarde, o relógio demonstra claramente que o tempo perdido não volta. Contente-se e alerte-se para isso. E, por um minuto, eu não me importaria com toda essa história, mas já se passou uma vida assim. Não, um dia de descanso não me beneficiaria em nada. Eu precisaria de outra vida pra curar essa.

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