Se não for pedir muito, avisa que o mau tempo já passou. Que as nuvens carregadas não perduram no dia. Lembra que a estação mudou, que já fez frio e calor, ventou, soprou. Acabou o ano mais de uma vez. Diz que as músicas preferidas já não são tão queridas assim, e que os seriados também perderam a graça. Pra ser sincera, nem sei em que temporada estamos, parei quando decidi enterrar o passado. Avisa que o sono tem sido ligeiro, embalado pelo cansaço. Que a falta do mundo não tem me afetado mais à noite. Raramente, vez ou outra, nada muito sério. Nada que me obrigue a procurar um especialista. Lembra de esquecer as futilidades daquela época, nós somos outros, ainda os mesmos corpos em mentes distintas, distantes. Diz pra não se preocupar em manter contato, o fio foi rompido, a linha cortada, o telefone está mudo em ambos os lados. E não há motivo no mundo pra reatar, não há dó no peito, nem jeito, o coração não esquece, mas faz questão de não ser lembrado. Avisa que a risada que tanto agradava agora encanta a outros, mais velhos, mais moços, sem muita distinção. Agrada por agradar ser assim. Diz que o temperamento virado tem chamado atenção em outros cantos, junto à silhueta marcada pelos anos, pelos medos e desencantos. Lembra que o copo da amargura foi bebido copiosamente até a última gota. Acabou. Secou, estancou. Foi tomado em um gole só, queimou a boca, temperou a alma. Demorou passar o gosto, a dor. Passou, e dessa dose não se prova mais. Pouco se fez e vai ser feito de agora em diante. Como erva daninha, foi exterminada. Nem presente, nem passado. Avisa que os passos largos, o jeito pomposo e a risada cínica não incomodam mais. Diz que ainda restou gosto pela vida e sei que tudo isso incomoda do lado de lá. É só mais uma das coisas pelas quais não vou me culpar.

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