Aquele sonho outra vez, Zé. O que me persegue e eu não sei o motivo certo. Desde os 8 anos, eu acho. Antes era diferente, me lembrava os filmes de bang bang, o faroeste, os índios americanos, ou algo mais próximo ao Peru. Agora e sempre tem sido esse. As chamas consumindo, como se a vida não passasse de um pavio curto, ávido, ínfimo. Das mais variadas formas, mas ainda assim do mesmo jeito. E pior, Zé, é como se o mundo não se importasse em ver tudo aquilo destruído... evaporando. Eu sei, você vai dizer que foi o trauma de infância que me fez assim. Que eu me prendi àquele dia infeliz, a primeira vez em que me senti tão inutilmente humana diante da maldade. Eu tive de ficar ali e assistir o brilho cortante das chamas na escuridão, como ferida aberta em erupção. E nada a fazer, Zé. Eu não alcançaria, nem se quisesse. Não era só a distância geográfica, era a imensidão que me engolia aos poucos. Ainda que as barreiras fossem rompidas, ainda que eu jogasse um balde de água fria, nada iria deter aquela fúria compulsiva que queimava. Então eu sentei e esperei copiosamente as horas se alargarem e o fogo se alastrar. E ouvia dentro de mim os gritos inocentes de misericórdia. Por que fazer isso? Qual o propósito maior em ver as coisas terminarem de forma tão grotesca e sem um motivo aparente. A troco de quê, Zé, me diz? Lembro de meu pai me obrigando a ir para a cama, e da noite se arrastar enquanto eu queria furtar um resquício do que acontecia lá fora. Preparei-me o melhor que pude pra encarar o amanhã. Cinzas, Zé. Por todos os lados aquela mancha enegrecida se destacava na manhã de pouco sol. Meu pai falou pra não me preocupar, logo logo tudo estaria novo em folha, que Deus opera milagres nessas horas. Mas precisava mesmo, Zé? Deus teria mesmo que 'desperdiçar' um milagre com algo tão covardemente provocado?! Nunca consegui aceitar isso, nunca consegui entender, podem ter passado dias ou anos. Eu ainda acordo angustiada no meio da noite. E eu gostaria sinceramente de saber se a inutilidade humana incomoda tanto assim só a mim, Zé. Não sei, e você vai dizer que é só mais um dos meus poucos problemas.

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