Procurei,
inutilmente, nos livros e nas bulas de remédio, o manual ou mapa estratégico,
que me levaria ao tão sonhado tesouro da maturidade. Mas hoje lhe digo: detesto
a maturidade. Aflige-me o fato do mundo não caber na palma da mão, do destino
simplesmente trilhar a rota contrária, do colo de mãe/pai não ser suficiente
pra acalmar uma angústia. Já me dei conta de que saber demais nos leva a não
saber de nada. Porque serei sempre a última a saber, e a primeira a sofrer as
consequências. Sonhava, ainda pequena, em ser tronco, raiz profunda, árvore frondosa
e frutífera. Mas é preciso solo fértil, e anda tão difícil preparar a terra com
a escassez daqui. Escassez de vida, de sentido, de pingos nos i’s, períodos
completos, pontos finais. São reticências, reticências, voltas e vírgulas, e
pontos sem nós, é muito começo pra pouco final, acaba sobrando nas bordas,
decantando no fundo do copo, acumulando nas extremidades da alma. Parece que
bebi mais do que podia da vida, o que me resta é uma ressaca do dia que começa
ainda cedo, e goteja como areia de ampulheta mal regulada. Meus dias se alargam
pra comprimir minha semana. A vida ri de mim, ou dos meus planos, por ter
ciência da inutilidade de todos eles. Acreditava que era muito, que era fácil, mas
agora me parece um pouco tarde demais. Querem exigir de mim um comportamento.
Querem me dizer tal qual devo fazer. Querem estourar meus tímpanos, querem me
emudecer. É incerteza demais pra completar a frase, pra acordar tranquila. Pensei
em fazer outro discurso fragmentado, mas nem as paredes guardam boas respostas.
Tudo foge ao controle, e isso é vida,
acontece todo dia.
