Nós
não temos culpa, Zé, mas quase sempre somos culpados. As melhores e as piores
coisas da vida vêm de graça para nós. E não há remédio no mundo que cure a dor
de ter perdido, que conserve a alegria de um dia. Tudo se dissipa, um dia
passa, uma hora para de fazer efeito. Os medos nos roubam o conforto, a
insegurança mastiga o juízo, nos faz passar por ridículos diante de coisas tão
bobas da vida. E essa mania de tomar conta de si mesmo, Zé, faz a gente
construir barreiras, muradas ao redor de nós mesmos. Quando nos damos conta, precisamos
de um banquinho para ver a grama do vizinho. Zé, a dor não é só minha. Eu vi um
amigo sofrer, e não pude oferecer ajuda, não que eu não quisesse, mas eu não
tinha como. E hoje me doeu mais forte saber disso, porque a fragilidade humana
é esmagada pela própria essência do existir. Zé, a dor da vida é maior que a
dor da morte, pois se prolonga, se estica, ocupa os cantos, nos machuca e
maltrata das formas menos inimagináveis e tangíveis. Hoje estamos aqui, amanhã,
só o acaso vai dizer. Zé, eu sinto as pessoas cada vez mais distantes, eu vejo
as dificuldades surgirem com mais facilidade, a vivacidade escapar por entre os
dedos. E não há uma fórmula certa, um
caminho exato pra seguir. É dar a cara à tapa e ver no que vai dar. Mas eu só
queria a certeza de alguns sorrisos na minha manhã, uma mensagem de boa semana
e um sundae de chocolate com meus dois anjos no sábado à tarde. É pedir demais,
Zé, me diz? Será que tá sendo mais difícil pra mim, ou a gente acaba se
acostumando ao desatino de ser gente grande?!
