Há
mais alguém aí fora, Zé? Mais alguém pra ouvir? Será mesmo que, além de nós,
mais alguém realmente sabe? Do fim, do começo, do choro, da falta de fôlego
depois da caminhada, da corrida, da fuga desmedida do passado que me perseguiu
tanto tempo? Nós esperamos tanto por esse dia, o dia em que eu não mais
desejaria aquilo que me foi tomado. Já mudaram todo o mundo antes, não é a
primeira vez, não vai ser a última, Zé. E tudo o que eu queria e não quis, as
portas abertas e fechadas, as orações que não encontraram resposta, chegou a
hora de deixar tudo ir, porque há muito já acabou, o que persistia era a inquietude
ecoando na alma. Eu morri todos esses dias esperando pela manhã em que não
faria mais diferença alguma o passado, e o que o presente se tornou. Que já não
estamos tão presentes assim. E não nos importamos mais, não além, não da forma
como era ou eu pensei que fosse. Demorou muito pra eu perdoar, pra aceitar, pra
entender de alguma forma. Por muito tempo a pura sede de vingança foi saciada
com aquele ódio engarrafado que trago sempre comigo. Mas eu não posso estar
onde não me cabe. Não posso ser prisioneira de mais ninguém, já suporto
drasticamente minhas celas interiores. E não comporto mais culpa, nem busco
saber o que deu errado. É realmente assim que me vejo, Zé, hoje, enquanto lhe
conto da vida e ouço as canções que embalaram o sono daqueles dias. Meus sonhos
não são os mesmos. Nem os dias. Nem a vida em si. Tudo mudou, mas as grandes
verdades permanecem as mesmas. Inalteráveis. Inabaláveis. Sempre que se chega
muito perto da felicidade plena, ela escapa por entre os dedos. E só nos resta
paz de espírito e coragem pra perseguir (persistir), Zé, não há maneira melhor de
levar a vida a não ser da forma como ela é.
