domingo, 10 de março de 2013

Vaga lumes.


     Você sabe, Zé, minha dor é velha. Os últimos anos me tiraram mais do que eu podia abrir mão, e talvez por isso eu tenha ficado com esse gosto amargo, esse tom desbotado, essa nuvem negra sobre os pensamentos. E eu procurei afastar tudo o que mastigava minha alma, pra ver se lá no fundo, bem no fundo, eu me convencia de que daria pra viver em paz. Que os problemas se resolveriam por sentença, a mágoa seria nula, a dor pagaria pena de silêncio perpétuo. Mas você me conhece, Zé, e sempre tem todo o tempo do mundo pra me ouvir. Então eu te falo agora das andanças, dos últimos dias. Por pena, a vida quis assim. Eu me desencontrei no meu caminho mais certo, Zé, e ainda hoje me arrebata essa dúvida em estar caminhando pro lado errado. Cheguei em casa hoje com uma dor física indescritível, e uma emocional inigualável. Parece que a dor ri de mim, Zé. Pior, é inútil, feita daquelas saudades vazias e fantasiosas, daquelas companhias descartáveis, regada de mentiras e falsas verdades. Não Zé, me deixe terminar, porque hoje me doeu demais. E vim buscar consolo em seu ombro, num copo de leite e na voz de Oswaldo. Ele me diz pra gente começar o dia se amando, Zé, mas como a gente ama aquilo que não quer ser mais?! Os dias mais parecem um ‘sinal fechado’, passam depressa, atropelam meus temores, me obrigam a andar acima do limite permitido. E se houver colisão, Zé, quem cuida disso?! Quem ordena o tráfego!? Quem resgata o incidente?! O que sinto é um cansaço imensurável daquilo que sou, Zé, sou um fardo tão pesado pra carregar sozinha. Foi uma distração que durou tanto, que tem custado tão caro. Não me assusto, não me importo, semivivo, e espero o papel timbrado ao fim do ano. Que significado vai ter?! Zé, eu nem sei o que escrever, me assusta não compreender o que eles falam, temo não conhecer a tempo o que me é exigido. A família cobra, a vida expecta, os maus olhos agouram meus sentidos. Zé, os dias foram comprimidos. Minha sorte escapa por entre os dedos. Minha cabeça anda aérea, e todas as noites o medo se ocupa do meu travesseiro. Eu só vejo as pessoas tomando o ônibus certo, chegando cedo no seu destino. Eu ainda estou perdida na estação, entra a linha azul e a vermelha, ou seria a amarela?! Zé, eu tenho medo, eu acredito que estou em perigo, Descobri que o passado não é nada disso, percebi que ele não volta, e pior, não tem nada em comum com o fim. Me diz, o que a gente faz agora?