Zé, consegui fechar a mala. Há quem diga que desfazê-la dá mais trabalho, mas nunca uma viagem me consumira tanto quanto esta. Não cabia esse ciúme todo, então escondi o restinho do frasco na prateleira mais alta, onde só eu posso encontrar agora. O orgulho resolveu murchar, de tal forma que dobrei num canto e abri espaço pra outras coisinhas. A vergonha desgastou com o tempo, Zé, acho que a sucessão dos dias arrancou pedacinhos dela, de um jeito que agora já não reconheço. Meu Deus, mas aonde acomodar tanta raiva?! Dobrei e revirei centenas de vezes, e quanto mais eu mexia, parecia expandir, saltar dos lados, pular pra fora. Tantos arranhões, Zé, foi uma luta como nunca imaginei um dia ter de enfrentar. E um desespero mesquinho me consumia em pensamento e palavras, derramadas numa página esquecida que só eu acompanhava. Tantas vezes só e tarde da noite, pensei desistir dessa grande viagem, pensei em outro salto pra eternidade. Desatei os nós das saudades, de modo que ficaram enfileiradas e em ordem alfabética, comprimidas até não suportarem a pressão e evaporarem. Mas faltava o medo e o apego a todas essas coisas que a gente cria sem querer. Aí eu resolvi chorar minhas pitangas até não poder mais. Até o meu peito surrado e murcho clamar por uma gota de esperança e me mostrar que já era hora de partir. Ele partiu tantas vezes nos últimos anos, tantas vezes em vão, que demorei a acalentar seu pedido na alma.
Amanheceu, Zé, ainda podia ver o tom marinho no céu, arrastei pela calçada nua minha bagagem pesada, rumo à última estação. Vez ou outra um desconhecido me olhava de canto de olho, mais curioso com o tamanho da mala que seu real conteúdo. Fui ao som de dois barcos, na rua ramalhete, sozinha. Por seguir os sinais do amor, me distrai do perigo, e só tarde me dei conta de que a vida nem presta, Zé. Parei na tal estação da qual a gente falou no último telefonema. Você me alertou de que, uma vez tendo pisado lá, volta e meia seus fantasmas me assombrariam. Não tem problema, Zé, despachei a mala, tenho até o ticket de confirmação. Despedi-me do meu passado como há muito eu queria ter feito. Ele, assustado, via eu me afastar com a mesma cara de quem faz sua primeira viagem sozinho. A volta foi mais breve, Zé, talvez não só pela falta do peso. Minha alma também descansava leve quando cheguei em casa. O futuro me recebeu com um sorriso nos olhos. E foi suficiente pra eu retribuir o agrado, como há muito tempo eu não fazia.
