segunda-feira, 18 de março de 2013

Cruzamento com a 21.


     E foi em frente ao espelho, atrás dos efeitos daquele último brigadeiro de panela, que me encontrei em crise. Há quem diga que os anos dourados acabaram de começar para mim. Maioridade, habilitação, certa independência, conclusão do ensino superior batendo à porta, cartão de crédito, poupança, horário de trabalho a ser cumprido, contracheque, meu Deus, até isso já carrego. Já não posso comer à vontade a pipoca do cinema ou o algodão doce do shopping, não tenho mais idade pra isso. Malho cinco dias por semana pra descobrir, no fim do mês, que minha calça jeans preferida não passa dos quadris. Meia dúzia de homeopáticos, comprimidos regrados, cremes, ácidos, tônicos para retardar aquilo que os anos não aguentam mais esconder. Ouço as músicas de cinco anos atrás e me pergunto como eu podia gostar daquilo?! Acordo em plenas 02:00 da manhã pra conferir se a porta está trancada. Me preocupa o preço da gasolina e as calorias da salada. Protetor solar, claro na parte de cima, escuro na de baixo pra contrastar, meu Deus, onde isso vai parar?! Entendo o lado de todo mundo, mas não significa que vou concordar. Há uma linha colossal que me separa das realidades e pessoas antigamente tão presentes. Passados não completam, apenas roubam de nós. As horas, os anos, os dias, o corpo sadio, a mente descansada, a coragem nos olhos, a vontade na alma. Rouba, porque viola nossa integridade física e emocional. Há quem diga que lembrar o passado faz bem, e faz. Faz, porque nos leva ao reencontro de nós mesmos, sem armaduras ou espadas. Mas nos faz enxergar nossas covardias, e são muitas, Deus, são tantas. Passamos a desconfiar tanto das verdades, que até as mentiras nos parecem mais santas. Ah, Deus, eu só tenho vinte e poucos planos pra realizar. Não quero me ocupar com o fato de ter de me preocupar com a vida que não caminha como eu desejava. Eu só queria que ainda me bastasse a alegria de saber que amanhã é sábado, mas aonde vai parar a alegria quando me lembro de que sábado é só o dia da faxina?! Quem entende, Deus, quem vai ousar entender...