terça-feira, 19 de março de 2013

Com sua licença.



    
    Um bom dia pode salvar vidas, Zé, eu acredito nisso. Minha criação cristã e católica infiltrou-se nos meus poros, não consigo caminhar pela rua sem desejar um bom dia ao pracinha, oferecer um sorriso pras crianças no parquinho, pedir benção ao padre que ruma à igreja em vigília, fazer uma prece ao passar em frente à Catedral. Mas, Zé, há quem considere tudo isso uma bobagem. Hoje mesmo, quando ia pro trabalho, encontrei um montinho de gente em frente ao consultório médico da esquina. Como me é de costume, recitei meu 'bom dia'. Zé, o que se seguiu foi um silêncio ensurdecedor. Constrangedor, eu quis correr dali. Num grupo de mais ou menos dez pessoas, ninguém, exatamente ninguém, deseja ter um bom dia?! Zé, eu acredito na força das palavras. Se repetirmos uma dúzia de vezes, talvez tenhamos mesmo isso ao fim do dia. Continuei meu caminho, enrubescida com o acontecido. Avistei duas senhorinhas conversando mais adiante na calçada. Resolvi arriscar outra vez. Uma me devolveu um bom dia, como obrigação. A outra virou a cara como quem estava ocupada demais para aquilo também. As palavras machucam, Zé, a falta delas também. Há um momento certo pra dizer, e a hora apropriada pra se calar. Algumas coisas, com o passar do tempo, perdem o sentido ao serem ditas. Não cabem mais, não convêm. Ou não fazem mais diferença. Talvez até pudessem ter feito, mas já é muito tarde para considerarmos. Então elas morrem em nós. Permanecem nesse mausoléu até sabe Deus quando. E nossos bons dias se calam, porque ninguém mais deseja ter um bom dia no fim das contas. Apenas se exige que ele se cumpra, termine, antes mesmo de pesar nas costas. O que me parece, Zé, é que as pessoas temem ser descobertas com um simples desejar. Quando se negam a responder, parecem estar protegendo algo só seu, mas que é cobiçado pelo mundo. Tão esnobe, tão repugnante isso. Que Deus perdoe a estupidez humana, Zé, porque me parece inútil demais o simples fato de desculpar os demais por isso.