Sempre
tive de ser coerente demais. Segurar o impulso com a ponta dos dedos. Ser
educada e compreensiva, porque o mundo nunca girou ao meu redor, cansei de
ouvir minha mãe dizer isso. Tive que abrir mão de algumas paixões por serem inalcançáveis,
troquei sonhos pela insônia de quem vai com muitas preocupações pra cama. Antes
eu ouvia música pra lembrar coisas boas, hoje, ouço pra esquecer a vida. Cada
dia que passa rouba mais certezas, e sobram inseguranças nas gavetas, na
estante, na mesa de centro. Deixei pra
trás toda uma carga de fantasia e conforto pra encarar aquilo que chamam de ‘vida’.
Confesso, nada de admirável me atrai nela, e depois das tantas coisas que
descobri, vejo que vale mais não saber ao certo o que é viver. A estupidez é
uma benção, porque no fim das contas ainda lhe oferece a desculpa: ela não
tinha como saber. Depois que se sabe, é tarde demais pra mudar o rumo das
coisas.
