Foi
a luz do último raio de sol quem me disse. A vida me afeta mais que a morte. A
gente vive numa simbiose tão mesquinha e partidária, os dias consumidos,
enquanto a rotina dilacera esperanças e desejos. Vivemos com pressa, urgentes de
si, a alma padecendo de um pouco mais de atenção e cuidado. Quem nunca acredita,
nunca fica satisfeito. E quem muito espera, corre o risco de chegar atrasado. O
espetáculo começa mesmo sem plateia. E se encerra sem cortinas fechadas. Dia
desses revisitei meu passado em prosa, mas não me cabia mais, como peça do ano
passado no guarda-roupa de agora. Não me atingem mais as saudades, engraçado,
nem as pessoas com quem convivia. Eis-me aqui, totalmente outra, e ainda a
mesma. A vida me aperta entre duas paredes invisíveis, me empurra o futuro encoberto
de vermelho, me sufoca no passado amarelo das páginas. Desapego, correto ou
incorreto, de cotidianos mesquinhos e amores avessos. Mas caçoam de mim tolas
almas, por prender meus dias ao meu feitio literário, ordenado em alfabeto, cor
e cheiro. Eu evito presenças pra não ser mais sozinha. Sou sozinha por ser
exatamente cheia de mim, em cada canto do meu cômodo apertado, me curando. Não
sinto saudade, meço as distâncias que se alargam, erguem pontes, constroem
muradas. Não troco palavras, nem cumprimentos, certas aparências não passam de
aparências, não há por que manter. Vejo vidas passando diante de mim, minha e
de tantos outros, sem uma nota certa do que acaba, do que começa. Procuro lentidão
de pensamentos em contraponto à rotina corrida. Desejo findar o ano mais do que
vivê-lo. Por simples acesso de histeria, quero saber o que chega sem me dar conta
do que vai. No fim das contas, não mudamos muito. Mas quase sempre, mudamos
sim.

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